Sabrina Noivas 50 - The Groom Wore Blue Suede Shoes
 
Um amor para arrebatar coraes e reacender as esperanas!
Erin Weller s queria ter 1 vida normal. Porm, desde que salvara Travor Steele de 1 multido de mulheres enlouquecidas, sua vida era tudo, menos isso! No era s o seu pulso que acelerava por causa da bela aparncia de Travor. Todos estavam convencidos de que ele era o novo Elvis! Travor no planejara constituir 1 lar em Memphis, mas a bela Erin o fazia ansiar por 1 vida sossegada. Mas seria preciso muito esforo para convencer Erin de que ele era o noivo ideal...

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publio original: 1996. Gnero: Romance contemprneo
Estado da Obra: Corrigida
CAPITULO I

Ei, mame! Veja aquelas mulheres rasgando as roupas daquele rapaz! Erin entrou no estacionamento, ao lado do imenso nibus vermelho e preto, e pisou no freio quando duas mulheres puseram-se na frente de sua pickup ao gritos.
	Veja! Esto brigando pela camisa dele!  o filho chamou-lhe a ateno.
As luzes do restaurante somavam-se a outras, tornando a cena indistinta. Erin estreitou os olhos, inclinando-se sobre o volante. Viu as pessoas dentro do restaurante, junto das janelas, apontando para fora. Cem metros adiante, um homem corria, tentando livrar-se de suas atacantes. Algo naquele homem parecia muito familiar.
	Devem estar fazendo um filme  Max declarou, empertigando-se no banco.
Erin olhou em volta.
	No vejo nenhuma equipe de filmagem. Alm disso, teramos ouvido falar a respeito.
	Quem  ele, mame? Algum famoso?
	No sei, mas qualquer pessoa famosa seria louca se tentasse comer um hambrguer num lugar como este.
Erin desviou a ateno do fugitivo para os cupons em sua bolsa.
	Veja s, mame! Nossa, como aquele homem corre!
Erin olhou. Em meio  semi-escurido, tudo o que pde ver foram mulheres descontroladas, gritando e tentando agarrar o homem sem camisa. J vira isso antes, vrias vezes, quando criana. Chegara a fazer parte de cenas como aquela, embora no por vontade prpria.
Observou a cena, feliz por encontrar-se a uma distncia segura. O estranho no parecia muito agressivo, ao tentar se defender. Ao contrrio, parecia estar tentando conversar com as atacantes. Erin teve a impresso de ver os lbios dele moverem-se, embora seu rosto estivesse escondido por um bon e pelos cabelos negros e longos. Descobriu-se torcendo para que ele tirasse o bon e o usasse para afastar as mulheres que no paravam de gritar. O que ele no fez. Em vez disso, virou-se e correu, proporcionando um show de sombras.
	Algo est errado  Erin falou em voz alta.
	O qu, mame?
	Se ele  uma celebridade, o que est fazendo sozinho aqui? Talvez seja s um golpe de publicidade.
Os dois olharam em volta, mas no viram nenhum fotgrafo ou reprter.
	Pobre homem  Erin murmurou.  Se tentou ser descoberto e armou esta cena, acho que conseguiu mais do que planejava.
De repente, o estranho escapou do grupo de mulheres e, com energia renovada, correu a toda velocidade. Seus braos ergueram-se e ele puxou a aba do bon sobre o rosto.
No mesmo instante, os fregueses do restaurante que assistiam  cena, em sua maioria homens e crianas, saram para o playground. Erin viu um jovem posicionar a cmera para tirar uma foto da celebridade, viu o homem mais velho que o tirou do caminho a cotoveladas, tambm na tentativa de conseguir uma fotografia.
Max pulou do banco do passageiro para o centro da pickup.
	O que est fazendo?  Erin inquiriu.
	Temos de ajud-lo, mame, mesmo que ele tenha feito de propsito.
	No seja ridculo!
	 Passe bem perto dele, mame. Vou abrir a porta e ele pode pular para dentro.
	Max, no abra a porta. No sou sua av. Sabe que no acredito em...
	Veja, elas j vo alcan-lo! Ele no tem chance!
Era verdade. As mulheres o perseguiam de perto, e pareciam ter aumentado em nmero. Estavam histricas, tentando agarr-lo com desespero. Erin estremeceu.
Talvez eu devesse ajudar. O plano dele pode ter dado errado e, agora, est sozinho, a merc de suas assim chamadas admiradoras. No teve nem um pouco de inveja dele. Analisou a situao depressa. Se ele corresse para a avenida movimentada, seria apanhado em segundos. Sua nica esperana seria correr em volta do estacionamento sem parar, at ele, ou o f-clube cair de exausto. Ou at elas conseguirem agarr-lo. A ideia a colocou em ao. Erin tirou o p do freio e pisou no acelerador. Com cuidado, passou pela cmica procisso de mulheres, rezando para que nenhuma delas saltasse na frente de sua pickup. Max abriu a porta lateral, enquanto Erin emparelhava com o fugitivo. Ainda no podiam ver-lhe o rosto, pois a aba do bon o encobria, alm dos cabelos revoltos.
 Pule!  Max gritou.  Venha, senhor, pule! Erin assistiu horrorizada a uma bota vermelha surgir do nada e atingir o homem no momento em que ele se atirava para a porta da pickup. Ficou ainda mais chocada ao ver a cabea dele atingir com fora o encosto do banco. Ele ficou precariamente pendurado, metade dentro, metade fora do carro. Como se j no fosse bastante, as mulheres aproximaram-se da porta, gritando obscenidades. Uma ruiva agarrou a perna do homem e soltou um grito de guerra triunfante, quando conseguiu arrancar-lhe um dos sapatos. Encorajadas pelo sucesso da companheira, outras arrancaram-lhe o outro sapato e as duas meias.
Max gemeu, segurando com fora o corpo inerte.- Erin estendeu a mo e segurou o brao do homem, puxando-o ao mesmo tempo em que manobrava na direo da avenida. Como num milagre, houve uma brecha no trnsito e ela entrou  direita.
	Segure-o, Max! No o deixe escorregar para fora! Conseguiu esquivar-se da barreira de mulheres que gritavam e sacudiam os punhos para ela.
	Consegui!  Max gritou.
Puxou as pernas do sujeito para dentro, dobrou-as e fechou a porta. Parecia ter a situao sob controle.
Erin respirou aliviada. Estava ansiosa para livrar-se da multido. Reprovava aquele tipo de comportamento. Ainda assim, tinha de admitir a prpria curiosidade pela identidade da celebridade. Seu corao batia descompassado, como anos antes, quando sua me perseguira Jerry Lee Lewis pelas ruas de Shreveport, em Louisiana. E tantas outras vezes.
Olhando pelo espelho retrovisor, rezou para que as fs no entrassem em seus carros e a seguissem. Entrou em ruas desnecessrias, s por precauo.
	Max?  chamou, sem tirar os olhos da rua. Como ele no respondesse, espiou pelo espelho.  Algo errado? Max, voc est bem?
Max ps-se de p e voltou ao banco do passageiro.
	Eu estou bem, mame, mas ele desmaiou. Ouviu a cabea dele bater no banco? Quem voc acha que ele ? Nunca vi seu rosto.
Erin sacudiu a cabea.
	Acho que vamos descobrir logo. Pelo jeito daquelas mulheres, eu arriscaria dizer que temos algum muito importante em nosso carro.
	No sei, mame. Acho que ele falou alguma coisa sobre ser enterrado no Texas.
Erin franziu o cenho.
	Isso  uma msica. Talvez ele seja um cantor de msica country. Seja quem for, deve ter aprendido uma boa lio.
 Sim  Max concordou.  Nunca mais vai parar para comer hambrguer.
Ela lanou um olhar para o filho.
	No era bem nisso que eu estava pensando.
Quinze minutos depois, entraram no jardim de uma casa. Erin desligou o motor.
	Max, desligue o sistema de segurana e, ento, v at o quarto de sua av e apanhe o taco de beisebol. Est atrs do...
	Ah, mame! Ele est desmaiado. No pode nos fazer nenhum mal.
	No sabemos se ele  mesmo uma celebridade. E se ele roubou a bolsa de algum? E se tentou assaltar o restaurante? Pode ter sido por isso que todas aquelas pessoas estavam atrs dele.
	Mulheres, mame. S havia mulheres atrs dele  o filho corrigiu-a.  Elas estavam lutando pela camisa dele. Tiraram seus sapatos e suas meias. Voc j viu vov fazer isso mil vezes. Elas estavam atrs de souvenirs.
Erin cerrou os dentes.
	Faa-me um favor, garoto. V buscar o taco.
Observou Max desligar o sistema de alarme e, ento, entrar na casa. De repente, sentiu-se muito sozinha. Chegou a sentir os dedos fortes em torno de seu pescoo. Saiu depressa da pickup e bateu a porta. Esperou o retorno de Max do lado de fora. No queria enfrentar o estranho sozinha. Ele poderia domin-la facilmente. Era verdade que seu filho de onze anos, mido para a idade que tinha, no poderia oferecer grande ajuda, mas o taco de beisebol, sim. O sujeito poderia estar fingindo, esperando apenas que abrissem a porta. E se fosse mesmo algum tipo de bandido? Devamos ter ido direto para a delegacia, pensou. Max voltou correndo, de mos vazias.
	Onde est o taco?  Erin inquiriu.
	No consegui encontr-lo.
	Max, volte l e...
	J olhou para ele, mame?
Erin tentou segur-lo, mas ele se esquivou e abriu a porta da pickup. Dois ps descalos caram para fora, seguidos por duas pernas longas e inertes.
	Ainda est desmaiado. Mame, ajude-me.
Apesar de suas dvidas, Erin segurou uma perna, enquanto Max segurava a outra. O jeans desbotado era macio, tendo sido lavado muitas vezes. E Erin notou que a bainha estava gasta. Ele devia usar botas, pensou e, estranhamente, sentiu o corao palpitar. Puxaram-no, at as costas nuas ficarem  vista.
Embora a iluminao fosse insuficiente, Erin pde constatar o que as fs eram capazes de fazer. Havia arranhes desde os ombros at a cintura, e o sangue ainda estava fresco em alguns ferimentos.
	Precisamos lev-lo para dentro  falou.  Ele vai precisar de primeiros socorros.
O estranho murmurou algo, como se concordasse com ela.
	Venha, senhor. Ajude-nos. Tente ficar de p e ns o levaremos para dentro  Max encorajou-o.
Erin sempre se surpreendia com a personalidade decidida do filho. Ele era, definitivamente, um lder, como a av.
	Ajude-me, mame.
Ela passou o brao por baixo do ventre do homem. Por um momento, sobressaltou-se diante do calor que a pele dele irradiava, bem como pela sensao de arrepios provocada por plos masculinos. Notou a firmeza daqueles msculos e no pde evitar a imagem de um levantador de pesos. Tiraram-no da pickup, e Erin sentiu o corao acelerar quando viu o bon cair no cho. Estava mais perto de descobrir-lhe a identidade. Conseguiram coloc-lo de p. Era um homem grande e, por causa do golpe na cabea, muito pesado.
	Calma, senhor  falou, por falta de algo melhor para
dizer.  Vai ficar tudo bem.
Era muito mais alto que Erin e, sustentando-lhe o peso, ela no podia virar-se para fit-lo. Os trs encaminharam-se lentamente para a casa.
	Muito bem, Max, ele est conseguindo sustentar o prprio peso. V na frente e apanhe o estojo de primeiros-socorros. Leve-o para o quarto de sua av.
Max saiu correndo, mas olhou para trs quando alcanou a porta e parou. Erin viu seus olhos arregalarem-se e sua boca se abrir na mais pura expresso de surpresa. Rezou para que o rosto do sujeito no estivesse to arranhado quanto suas costas.
	Depressa, Max!
O estranho apoiou-se nela. Erin deu-se conta de que tentava aspirar aquela mistura intrigante de suor e colnia masculina. Prendeu a respirao. Estavam quase chegando na porta.
	S mais alguns passos  ela o encorajou, mas, assim que cruzaram a soleira, ele tombou para a frente, levando-a consigo.  Solte-me!  Erin gritou, livrando-se do brao pesado que a prendia.
Rolou no cho e virou para queixar-se, mas o que viu deixou-a sem palavras. O rosto dele estava virado para o outro lado, os cabelos negros apresentavam-se revoltos. Os arranhes em suas costas brilhavam. Ele no se moveu.
Erin desejou possuir uma arma, algo com que pudesse defender-se e ao filho, em caso de necessidade. Respirou fundo e forou-se a falar:
	Vamos l, camarada. Vamos tentar de novo.
Ele no respondeu e Erin perguntou-se o que deveria fazer.
	Voc est bem?  perguntou, inclinando-se sobre ele e, com certa hesitao, afastando os cabelos que lhe escondiam o rosto. Afastou-se assustada. Quando finalmente encontrou a voz, murmurou:  Meu Deus! O que tem na cabea para aparecer em Memphis?
O absurdo de suas prprias palavras surpreendeu-a. Ele no podia ser quem ela pensava que fosse.
	 o Elvis.  ele mesmo, no , mame?
Erin deu um pulo, como se Max houvesse gritado.
	No. Claro que no.
No pode ser!
Max aproximou-se hesitante.
	, sim  insistiu num sussurro.
Erin virou-se para o filho. Os olhos dele pareciam enormes, seu rosto, plido. As sardas pareciam agitar-se. Apresentava o mesmo olhar ansioso que a av sempre exibira, antes de lanar-se na perseguio de algum dolo.
	Ele est sangrando, Max. Aparies no sangram.
Max chegou mais perto.
	No  um fantasma. No acredito em fantasmas. Ele est se escondendo, como dizem os jornais. Foi ele mesmo que viram em Michigan e, agora, voltou para casa.
Erin olhou para o estranho. Seria fcil deixar a imaginao viajar junto com a do filho. Os cabelos negros e longos, assim como as costeletas exageradas eram idnticas s de Elvis. O nariz bem feito tambm parecia ser dele. E, embora pudesse ver apenas o perfil, diria que os clios longos e arqueados eram to negros, que pareciam pintados de rmel. Sacudiu a cabea, dando um basta  imaginao.
	 um dos imitadores de Elvis  sussurrou.  Um ssia, Max, incluindo esse horroroso anel de diamante.
Tem de ser!
Como Max no respondesse, ela virou para fit-lo. Jamais vira o filho to abalado.
	Max, j viu centenas deles com sua av. Aparecem s dzias em agosto. Voc sabe disso. Alm do mais, este homem  jovem demais.  A expresso de Max dizia que ele no estava convencido.  Venha, vamos tentar arrast-lo at o quarto e cuidar desses arranhes.
Ambos ficaram parados, hesitantes em toc-lo. Embora Erin soubesse que o sujeito era de carne e osso, quente e firme, visualizou a prpria mo desaparecendo naquele brao forte.
Ele  humano. No  um fantasma. Repetiu as palavras em silncio, antes de segurar-lhe o brao. Max imitou-a e, juntos, conseguiram arrast-lo para o quarto.
O estranho parecia fazer parte do quarto rosa e preto. Ou seria apenas a imaginao de Erin? Com cuidado, limpou os arranhes com um algodo embebido em anticptico. Ele tinha o corpo bronzeado, perfeito, exceto pelos ferimentos infligidos pelas fs. No as suas fs. As fs de Elvis. Este no  o verdadeiro. Mas, e ser for? Se ele realmente viveu escondido todo esse tempo? No seja tola!
Enquanto espalhava a pomada, procurou na memria por uma lembrana do verdadeiro Elvis Presley. Cicatrizes? Sinais de nascena? No se lembrou de nada.
	Por que ele est demorando tanto para voltar a si?  Max perguntou.
	No sei. A pancada na cabea no foi to forte. Talvez devssemos chamar um mdico. Ele pode precisar de uma antitetnica.
Continuaram a sussurrar, como se, ao acordar o estranho, suas suspeitas fossem confirmadas. Ou pior, suas esperanas negadas.
	Ora, no acha que vov teria um ataque? Precisamos telefonar para ela.
	De jeito nenhum  Erin declarou com firmeza. Graas a Deus, ela no est aqui. No temos condies financeiras para arcar com mais um dos ataques que sua av tem por causa do Elvis. Alm do mais, nunca se sabe o que Lou  capaz de fazer. Ela poderia mat-lo, por imitar "o rei", ou guard-lo como souvenir, junto com toda esta parafernlia.
Erin e Max olharam em volta, para o quarto decorado nas cores preferidas dele. Os psteres dos filmes de Elvis cobriam as paredes. Lou Weller possua todas as lembranas que conseguira obter de Elvis, e sua casa era uma prova disso.
Nossa nova casa, Erin pensou. Enquanto Lou estava no Havai, prestando homenagens  memria de Elvis, Erin e Max haviam se mudado de seu apartamento para a residncia Weller. Tinham de faz-lo, se quisessem manter o pequeno estdio musical que possuam na Poplar Avenue. E Lou argumentara que os dois poderiam ajudar a tomar conta da coleo. Mesmo tendo um carssimo sistema de segurana que impediria um assalto, e a iluminao excessiva do jardim, que desencorajaria qualquer ladro, ela no se sentia segura, pois no queria perder nada que lhe lembrasse Elvis.
Um gemido vindo da cama chamou-lhes a ateno. O estranho estava voltando a si. Erin afastou-se. Max inclinou-se sobre ele.
	Est se sentindo bem, senhor?  ele perguntou.
	Preciso... chegar em... casa...  o homem balbuciou.
Erin esfregou os braos, tentando livrar-se dos arrepios.
	Est em casa, senhor. Estamos a poucos quilmetros de Graceland.
	Max!  Erin sussurrou furiosa.
O menino sorriu.
	Estou apenas, fazendo um teste com ele, mame.
	No venha me fazer de boba. Sabe que minha experincia com sua av no foi das melhores.
	Minha casa...  o homem repetiu.
Reunindo coragem, Erin aproximou-se da cama. A pele bronzeada trouxe-lhe  mente a imagem dele trabalhando ao sol, sem camisa. Afastando o pensamento, decidiu dar ao sujeito o benefcio da dvida. Afinal, ele precisava de ajuda.
Estudou-lhe o perfil com cuidado. Ele parecia um homem saudvel. Se fosse algum tipo de bandido, teria um sinal de maldade, ela refletiu. No resistiu ao impulso de tocar-lhe a costeleta com a ponta do dedo. Ao sentir o corao acelerar, retirou a mo.
	Trate de dormir. Descanse um pouco e, ento, ns o levaremos para casa  prometeu.
O estranho relaxou visivelmente. Me e filho saram do quarto em silncio.
	O que vamos fazer com ele?  Max perguntou, apanhando o controle remoto e ligando a televiso sem som.
	No vamos fazer nada com ele  Erin declarou.  Ao menos, no agora.
Tudo o que desejava no momento era um pouco de silncio. Infelizmente, Max parecia ter outros planos.
	Os jornais estavam certos. Ele estava se recuperando de uma doena misteriosa e, agora...  parou de falar ao ver a me sacudir a cabea.  Ento, por que voc no me d uma boa explicao?
Erin respirou fundo.
	 um imitador.  tudo to claro e simples. Aquelas
pessoas no restaurante haviam sado do nibus de excurso.
Voc viu o nibus. Provavelmente, vieram visitar Graceland, e todos os lugares que Elvis costumava frequentar. Estavam sintonizados em Elvis e, quando este homem entrou... bem,  fcil concluir o que aconteceu. Ficaram descontrolados.
Max emitiu um som que deixava claro que a teoria no o agradava.
	Vov me disse que Elvis foi congelado e que vai voltar quando...
	Ora, Max, voc sabe que sua av  completamente doida, quando se trata de Elvis.
	Ela tem ideias muito interessantes  Max argumentou.
	No com muita frequncia. E estamos prestes a perder tudo o que temos: a casa, o estdio. Teremos de viver na pickup, se no tivermos cuidado.
	No estamos to duros, assim. Vov foi ao Havai, e no poderia ter ido, se nossa situao fosse to ruim.
Erin sacudiu a cabea. Como poderia explicar ao filho que no tivera coragem de cancelar a peregrinao anual de Lou ao Havai?
	Esta foi a ltima viagem  falou.
Max empinou o queixo, e Erin reconheceu uma mistura de Lou com ela mesma em sua expresso.
	Vov sabe o que est fazendo. Ficaremos ricos.
	Assunto encerrado, Max  Erin concluiu num suspiro. 	Acabamos no comendo. Que tal irmos para a cozinha e acabarmos com as sobras?
	J comemos aquela comida trs vezes  ele protestou. 	E no estou com fome. Vou esperar e comer com El... com o estranho.
Erin acomodou-se na poltrona e fechou os olhos, relembrando o momento em que vira o rosto moreno pela primeira vez. Sobressaltou-se, quando Max gritou excitado:
	Veja, mame, veja!
Apontou o controle remoto para a televiso e aumentou o volume.
	Ah, no  Erin gemeu, empertigando-se na cadeira, atenta s palavras da jornalista.
	Ao contrrio da cena em Michigan, os indivduos de hoje estavam preparados. Tendo chegado minutos antes em um nibus de excurso de Tucson, Arizona, vrias pessoas carregavam mquinas fotogrficas e filmadoras.
Erin voltou a gemer, ao ver na tela o que ela vivenciara pessoalmente.
	Quando, de repente, uma pickup branca apareceu e salvou Elvis...
	Somos ns!  Max gritou.
Um amador filmara Max na porta da pickup.
	Sou eu!  ele voltou a gritar, ainda mais excitado.
Erin assistiu horrorizada  bota vermelha, ainda to viva
em sua memria, voando no ar e atingindo o homem que corria. Porm, o que viu a seguir, fez uma prece escapar de seus lbios. O sujeito que filmava conseguira um close, e a placa de sua pickup aparecia ntida na tela.
	Que Deus nos ajude  murmurou.  Agora, vo nos apanhar.

CAPITULO II

Travor abriu um olho. Fechou-o e voltou a abri-lo. Elvis Presley estava de p, no canto do quarto.
Apoiando-se no cotovelo, olhou em volta. Nem em seus piores pesadelos vira algo assim. Figuras de Elvis, feitas de papelo, posavam nos quatro cantos do quarto. Psteres de seus filmes cobriam as paredes. Fechou os olhos depressa. A decorao rosa e preta quase lhe provocou nuseas.
Conseguindo evitar as nuseas, sentou-se na cama, mas manteve os olhos fixos no cho, a fim de no ter de olhar para o roqueiro. Perguntou-se em que diabos de lugar estava. A pele das costas ardia, sua cabea latejava e seus punhos queimavam. Olhou para eles e assustou-se ao ver os arranhes cobertos com pomada. Seu relgio desaparecera. Ento, lembrou-se das mulheres histricas e sentiu o corao acelerar. Teriam conseguido captur-lo? Olhou em volta de novo, passando a mo pelos cabelos.
Era tudo muito estranho, pensou, olhando para os ps descalos. Mexeu os dedos para se certificar de que aqueles ps realmente lhe pertenciam. Nada parecia real naquele quarto. Alis, nada parecera real, desde que chegara em Memphis. Perguntou-se se estaria sonhando.
Mais uma vez, o horror de ser perseguido por uma multido de mulheres voltou  sua memria. Cobriu o rosto com as mos, mais por vergonha, que por qualquer outra coisa. Podia imaginar quanto fora ridcula a cena dele correndo pelo estacionamento do restaurante, com uma multido de mulheres atrs. Estivera perfeitamente consciente das pessoas que assistiam ao espetculo. Jamais deveria ter entrado na Elvis Presley Boulevard.
Travor estudou o museu ao seu redor e sacudiu a cabea para a figura de papelo.
Um rudo vindo de outro aposento chamou-lhe a ateno. Inclinou a cabea e tentou ouvir. Pareciam vozes.
Ainda atordoado, ps-se de p e procurou pela camisa. Nada de camisa. Passou a mo pelo peito nu, abriu a porta e saiu para o corredor. Virou para a direita e parou, prendendo a respirao.
Um garoto estava ajoelhado no cho, apontando para uma grande televiso. Uma mulher jovem estava sentada na beirada da cadeira, parecendo muito tensa. Estava definitivamente desolada por alguma razo. Travor dirigiu o olhar para a tela da televiso, mas tudo o que viu foi um sujeito segurando uma lata de rao para ces. O som fora desligado.
Ningum se dera conta da presena dele na porta. A mulher passava a mo pelos cabelos loiros em gestos nervosos. De repente, ela se levantou, apanhou a bolsa e retirou algumas chaves de dentro dela. A cala jeans desbotada era justa na perna, mas o resto do corpo aparentemente delicado estava escondido por uma camisa larga.
O menino apanhou as chaves.
	Vou escond-la na garagem para voc, mame. No se preocupe. No vo nos encontrar.
Mame? Eu juraria que ela era a irm mais velha. Travor sentiu uma pontada de decepo. Onde h um filho, costumava haver um pai. Ainda assim, uma sensao de apreenso provocou-lhe um certo tremor,  medida que as palavras no menino penetravam sua mente. Fugitivos? No que eu fiii me meter?
	Apague as luzes do jardim, Max, para que os vizinhos no o vejam. A esta altura, todos devem ter visto o noticirio.
A voz dela era baixa e rouca. O tremor de Travor tornou-se mais intenso.
	Mame, a sra. Tillotson, que mora ao lado, sabe que temos uma pickup branca. Todos os vizinhos sabem.
	Pensaremos nisso depois  a mulher respondeu.
Pickup branca? Ele se lembrava de uma pickup branca.
Pule, senhor. Vamos, pule. As palavras ecoaram em sua memria. Eles o haviam salvo daquelas mulheres selvagens. Aquele era o garoto que abrira a porta da pickup e o puxara para dentro. Seria aquela a mulher que cuidara de seus ferimentos? A ideia agradou-o.
Travor deu um passo  frente e limpou a garganta. O som chamou a ateno dos dois, que se viraram depressa para ele e, ao que lhe pareceu, empalideceram. O menino deixou as chaves carem.
Travor no compreendeu a reao de ambos. Sabia que devia estar horrvel. Fazia meses que no cortava os cabelos, mas eles deveriam saber que era falta de educao olhar fixamente para algum, como estavam fazendo. Sentiu-se completamente exposto, sem camisa e descalo. No tinha o hbito de andar sem roupa na frente de mulheres, mas no havia nada que pudesse fazer a respeito. S lhe restava rezar para que o marido dela no aparecesse.
Como nenhum dos dois falasse, Travor deu um passo adiante.
	Desculpe, senhora, mas poderia me dizer o que est acontecendo?
Erin estremeceu ao ouvir o som da voz dele. O sotaque sulista era macio e muito familiar. Parecia vir das profundezas daquele peito forte, antes de sair pelos lbios sensuais. Ela olhou para o filho, que assentiu no que parecia ser um "eu avisei".
Foi Max quem respondeu.
	Claro, senhor. O senhor estava sendo atacado por suas fs, e minha me e eu o salvamos.
Travor franziu o cenho.
	Fs?
Os trs fitaram-se em silncio. Sentindo-se mais desconfortvel ainda, Travor olhou em volta. No to mau quanto o quarto, mas exagerado nas homenagens a Presley. 
	Vocs so ias de Elvis?  perguntou, apontando para um retrato enorme do cantor, pendurado na parede.
O corao de Erin agitou-se mais um pouco. Aquela voz poderia derret-la. E ele tinha aquele olhar vulnervel, que nenhum imitador de Elvis conseguia reproduzir. Era perfeito. Mas Erin no estava disposta a responder. A pergunta parecia algum tipo de jogo. Era como se uma cmera fosse surgir do armrio a qualquer momento. Aquilo s podia ser uma brincadeira. Tinha de ser.
De repente, ela se virou para Max.
	Claro!  exclamou.  Sua av est por trs disso, no est? Ela contratou esse imitador e armou a cena toda.
Foi por isso que nos deu todos aqueles cupons para o restaurante. E voc fazia parte do jogo, no , Max? Foi voc quem sugeriu aquele restaurante. E, tambm, foi ideia sua salv-lo. Ora, vocs me pregaram uma pea, certo?
Travor deu um passo na direo de Erin.
	Espere um minuto, senhora. Se isto  uma brincadeira, ento foi em mim que pregaram uma pea.
Tanto a mulher quanto o filho o ignoraram.
	Vov no faz brincadeiras sobre o Rei. Voc sabe disso, mame.
	Que rei? Do que vocs dois esto falando?
Erin teve uma vaga noo dos protestos dele. Afundou-se na cadeira, frustrada. Max tinha razo. Lou Weller era uma f dedicada e devotada. Possua todos os livros escritos sobre Elvis, mas se recusava a l-los. Pedia a outras pessoas que lessem para ela, pulando qualquer meno que parece blasfema, como ela costumava dizer. Nem sequer aprovava os imitadores de Elvis, a menos que fossem muito, muito bons.
E aquele sujeito parecia bom, Erin pensou. Como o verdadeiro McCoy. Lou, certamente, gostaria dele.
Travor permaneceu parado no meio da sala. Sentia-se como se houvesse sido salvo por um par de lunticos. Quem diria! Me e filho, igualmente malucos. Ora, ele j ouvira falar que doena mental podia ser hereditria. Estudou-os, sem perceber que passava a mo no peito.
Erin observou a mo grande, os dedos longos, deslizarem do peito ao umbigo e voltarem. Lembrou-se de como a pele dele era quente, quando o retirara da pickup. Pensou no brao dele apoiado em seus ombros, quando se encaminhavam para a casa. E da maneira como seus prprios dedos haviam medicado os ferimentos, demorando-se aqui e ali, como se tivessem vontade prpria. Sentiu-se hipnotizada pelo movimento. Tantos plos... to densos... encaracolados...
Plos! Uma onda de alvio mesclada de decepo a invadiu.
	No  ele. Eu sabia que no era.
	Quem?  Travor perguntou e, no instante seguinte, registrou a informao.  Est brincando, madame. Diga que est brincando.  Parou de falar. Ela parecia to zangada, to desiludida, que ele no foi capaz de continuar. A voz dela continha um tom de acusao, como se ele a houvesse enganado de propsito.  Est pensando o que eu acho que est pensando?
Ningum respondeu.
	Tem certeza, mame?  Max perguntou.
	Claro que tenho. Veja o peito dele.
Max aproximou-se de Travor hesitante, inclinou-se e estudou-lhe os plos negros que cobriam seu peito.
Travor tambm olhou para baixo, preparando-se para a dor, caso o menino lhe arrancasse alguns plos.
	Elvis no tinha nenhum plo no peito. Ao menos, no muitos  a mulher afirmou.
Eu estava certo. So malucos.
	O que os plos do meu peito tm a ver com o que est acontecendo?  ele perguntou, mas no recebeu mais do que um olhar de desdm.
	Veja qualquer um de seus filmes e descobrir que tenho razo  ela falou confiante.
	 efeito dos remdios  o garoto contra-atacou, com igual confiana.
	Que remdios?  Travor inquiriu atnito.
	Max, por favor. S pode estar louco para pensar uma coisa dessa! Se existisse um remdio capaz de fazer nascer plos, todos os carecas o estariam tomando.
Travor teve vontade de rir. Me e filho possuam uma imaginao e tanto. Acho que vou entrar no jogo... s para me divertir um pouco. Quero ver at aonde eles vo.
	E hereditrio  falou, finalmente chamando-lhes a ateno.
Erin e Max fitaram-no boquiabertos.
	Meu pai foi cabeludo at morrer, assim como meu av e, pelo que sei, o pai dele, tambm.
	E Vernon  Max lembrou  me.
	Quem  Vernon?  Travor perguntou.
	Voc sofre de amnsia?  Max perguntou, sentando-se no brao da poltrona da me.
	Talvez, sim. Ou, ento, estamos os trs vivendo um pesadelo.
Ningum riu.
	Lembra-se de que ns o trouxemos para a casa da vov em nossa pickup?  Max testou-o.
	Vagamente  Travor respondeu.
	Lembra-se daquelas mulheres perseguindo voc?
	Tenho cicatrizes para lembrar. Queria agradec-los, pois acho que elas iam acabar me matando.
Max riu.
	S queriam um pedacinho de voc para seus lbuns de recortes. Precisa ver o lbum da vov.
Um pedao de mim? Essa gente  mesmo perigosa.
	Escutem, h um engano. Sou apenas um cara do interior, e, segundo dizem, muito parecido...  Travor parou de falar, pois os dois o fitavam como se ele estivesse prestes a contar-lhe uma piada que j conheciam.  Imagino que j saibam o resto.
	Vai nos dizer que no  um imitador de Elvis  Erin declarou.
	Exatamente.
	Quer dizer que no  Elvis? No esteve escondido todo esse tempo?  Max perguntou incrdulo.
Travor ficou chocado. Era verdade que muita gente havia criado confuso por causa de sua aparncia, mas aquela histria era simplesmente ridcula. Estudou a me. Ela no parecia achar nada ridculo. Ao contrrio, parecia capaz de tornar-se to violenta quanto as mulheres no estacionamento. Virou-se para o menino. Era evidente que j se decidira.
	Esto brincando? Elvis Presley?  Travor sorriu pela primeira vez.
Erin teve de esforar-se para no ceder  vertigem. Aquilo no era um simples sorriso, mas sim o sorriso de Elvis.
A tenso se dissipara, depois das apresentaes, embora Travor tivesse o pressentimento de que o garoto continuasse a acreditar que ele era Elvis. A me parecia mais tranquila, embora o tratasse bem demais. A pickup fora guardada na garagem, as cortinas fechadas e, agora, os trs estavam na cozinha, tentando matar a fome com as sobras que encontraram na geladeira.
Travor bebia gua gelada e comia legumes com queijo. O menino insistira em preparar algumas fatias de bacon, exatamente como Elvis gostava. Travor fez uma anotao mental para ter cuidado com o que comia na frente do garoto, pois poderia piorar as coisas, caso aceitasse os pratos pre-diletos de Elvis.
	Ento, decidiu vir para Memphis primeiro  Erin falou, mordiscando uma torrada.
	Sim. Foi uma pssima escolha, considerando-se... Bem, no saio do Texas desde que era criana. Ento, pensei em viajar de moto por Arkansas, Memphis, passando por Jackson e Nova Orleans.
	Nunca viajou?  Max perguntou incrdulo.
	Nunca, mas pretendo mudar isso logo. Assim que resolver alguns negcios em casa, partirei novamente. Tem muita coisa para se ver por a.
	J estive em muitos lugares, e s tenho onze anos.
	No seja metido, Max.
Travor sorriu.
	Quando tinha onze anos, eu trabalhava na oficina eltrica de meu pai. Tinha um cantinho para mim, onde consertava torradeiras, ferros de passar, e qualquer outro aparelho pequeno.
	Voc j ganhava o seu prprio dinheiro, com onze anos! Viu, mame, ele tinha um emprego. Por que no posso ter um tambm?
Travor interrompeu-o.
	No, filho, o dinheiro no era meu. Minha famlia era muito pobre. Embora tivssemos alguns alqueires de terra, mal ganhvamos para viver.
Apoiada no balco, Erin comia sua torrada e o ouvia falar. Era difcil imaginar um homem adulto que no conhecia nada do mundo. E era ainda mais difcil imaginar Travor Steele aos onze anos, ajudando a famlia a ganhar seu sustento.
	As coisas teriam sido diferentes, se fosse filho de Lou  comentou.
	 verdade. Conte a ele, mame  Max falou.
	No consigo pensar em mim mesma, vivendo em um nico lugar  Erin continuou.  Nasci em Tulsa e, quando tinha nove meses, j conhecia Louisville, Kentucky, Boulder, Colorado, Houston, Texas e Mobile, no Alabama. E isso foi s o comeo.
	Seu pai devia ser transferido com frequncia.
Erin riu.
	Pode-se dizer que sim. Meu pai trabalhou para Elvis, durante algum tempo. Mas minhas viagens comearam depois do divrcio de meus pais.
	Vov  legal. Dizem que  uma tiete. Sempre foi. Ela diz que  a rainha das tietes.
Erin sentiu as faces arderem.
	Ela foi, Max. Est bem mais sossegada agora.  Vendo a careta que Max fez para Travor, Erin decidiu mudar de assunto.  E uma pena que tenha de mudar seus planos. Memphis  uma cidade muito interessante, assim como Jackson. Poderia se divertir um bocado.
Ela se deu conta de que falava olhando para o cho, e sabia que isso era horrvel. Porm, tinha dificuldades em olhar para Travor, pois seu corao saltava cada vez que o fazia.
	No vou mudar meus planos.
Travor ficou to surpreso quanto Erin com suas prprias palavras. No entanto, deu de ombros.
	Tenho lugares para conhecer e pessoas para visitar  explicou.
O que aconteceria se dissesse a ela que um dos motivos que o faziam ficar em Memphis eram aqueles cabelos loiros, que lhe enfeitavam o rosto. Outro era o fato de ela no usar aliana. Pelo aperto no peito, Travor era obrigado a admitir que estava muito atrado por ela. Sabia que tal sensao poderia ser mero efeito do bacon torrado que o menino insistira para que provasse.
	Legal! Voc vai ficar! Pode dormir no quarto da vov. Mal posso esperar para v-la chegar em casa. Ela vai ter um ataque!  Max exclamou muito entusiasmado.
Ao contrrio da me.
	Ele no pode ficar aqui!  Erin falou.  No pode estar falando srio, Travor. No poder andar pelas ruas de Memphis. Especialmente agora, em agosto.  o aniversrio da morte dele, um grande acontecimento na cidade. Os imitadores de Elvis esto em todos os lugares, e no correm quando as fas os assediam. Foi isso que o meteu em encrencas. Voc correu.
	Sinto muito, mas no  fcil ficar parado, quando um bando de mulheres parecem decididas a faz-lo em pedaos.
Erin franziu o cenho.
	Escute, esta  a pior poca do ano para voc estar aqui. Pessoas do mundo inteiro viro a Graceland, nas prximas duas semanas, para a viglia anual  luz de velas. Voc no poder sair para a rua e...
	Ora, mame, vamos ficar com ele at vov chegar. Ela no vai se importar  Max insistiu e virou-se para Travor.  Ela sempre hospeda pessoas.  uma descobridora de estrelas e cantores. Grava discos e, agora, vamos comear a gravar vdeos e...
	No se deu conta da sua aparncia?  Erin interrompeu.
Travor queria fazer mil perguntas a Max, sobre a av e a me dele, mas Erin fitava-o com ar suspeito.
	Pareo-me com Travor Steele, de Rattan, no Texas. Tenho esta aparncia desde menino, e nunca ningum me confundiu com Elvis Presley.  Era uma mentirinha sem importncia, ele pensou. Sua aparncia era diferente do que fora no passado.  Vocs de Memphis s pensam nisso. Foi por isso que me confundiram.
Desejou que Erin estivesse, ao menos, um pouquinho feliz com seus planos de ficar. No era possvel que ela no se sentisse nem um pouquinho atrada por ele.
Max riu e virou-se para a me.
	Vamos, mame. Vai ser divertido. Podemos vesti-lo com uma das fantasias que vov tem. Vai ficar demais! Podemos at inscrev-lo num concurso de ssias. Quando vov entrar por aquela porta, vai...
	Chega, Max. Ele no  um brinquedo, e a situao no  um jogo.  Erin virou-se para Travor, fixando os olhos azuis acima dos cabelos negros.  Sr. Steele, no poder sade casa. H pouco mais de uma hora, o noticirio declarou que Elvis est vivo e bem, em algum lugar em Memphis. Caso no tenha percebido, voc se parece muito com ele. Especialmente para pessoas que tenham se esquecido dos detalhes nos traos de Elvis. O noticirio falava de voc...
	Esse  o erro deles...
	Mas o problema  seu... e nosso. Aparecemos na televiso, salvando voc. Estou surpresa por ainda no estarem batendo na porta, o telefone no estar tocando... Ah, o telefone!
Erin saiu da cozinha apressada.
	Mame vai tirar o fone do gancho, para que ningum consiga ligar. A vov vai ficar furiosa.
	Por qu?  Travor perguntou.
	Porque quando vov descobrir que voc est aqui, vai telefonar e nos dizer exatamente o que fazer. Aposto que ela tem timos planos para voc.
Erin retornou  cozinha e passou as mos pelos cabelos dourados, retomando a conversa do ponto em que parara.
	No fao ideia de como esclarecer esta situao.
	Ligue para as estaes de televiso  Max sugeriu.
	Ou para os jornais  Travor acrescentou, piscando para Max.
Erin no achou graa.
	Por que no os bombeiros, ou a polcia? Melhor: o FBI!
	Gostaria que ligasse para a polcia e perguntasse sobre a minha moto e minha mochila  Travor falou, coando a cabea.
	Uau! Uma motocicleta!  Max exclamou com inveja.
	Uma Harley novinha  Travor vangloriou-se, mas Erin no se mostrou impressionada.
	Todas as minhas roupas estavam na mochila, alm de uma fita de...
	Fita?  ela o interrompeu.  Ah, diga que  uma fita da Dolly Parton!  Pediu, sentindo um aperto no estmago.
Travor sorriu.
	George Strait?  ela arriscou.
Travor sacudiu a cabea.
	No me diga que voc canta  ela tentou num fio de voz.
	Est bem, no vou...
	Demais!  Max exclamou com ar de admirao.
Erin sentiu o estmago contorcer.
	Por que eu, meu Deus?  balbuciou.
Travor sorriu com timidez, ergueu a mo e despenteou os cabelos j revoltos.
	Radical!  Max gritou.  O corte de cabelo  moda militar, em 1958! Lembra-se do documentrio, mame? 
Sim, ela se lembrava. O mundo inteiro vira Elvis sentado na cadeira do barbeiro, erguendo um brao e agitando os cabelos cortados ao estilo militar e sorrindo com timidez para as cmeras. Era uma das cenas favoritas de Lou. 
Erin respirou fundo e segurou-se na pia, certa de que estava prestes a desmaiar, como uma tiete tpica.
	Mame no costuma se comportar assim. Acho que est nervosa, porque filmaram a placa da nossa pickup. Ela no quis ser rude  Max explicou num tom adulto, que fez Travor sorrir.
	Tudo bem  Travor respondeu.
Estava decepcionado. Depois de terem convencido Erin a deix-lo ficar, imaginara que o garoto fosse dormir, e ele pudesse ficar algum tempo com ela, conhecendo-a melhor, descobrindo porque seu estmago parecia agitar-se, cada vez que olhava para ela. No tivera muitas namoradas, desde a adolescncia, mas as poucas mulheres que conhecera no haviam lhe provocado aquelas sensaes. No final, o garoto no fora para a cama, mas a me sim, deixando instrues muito maternais para ambos.
	Max, providencie para que o sr. Steele tenha tudo o que precisar. No quero nenhum dos dois usando o telefone, abrindo a porta, ou ligando a televiso. No quero saber o que o mundo est fazendo ou pensando. Para mim, chega.
Agora, no quarto excessivamente decorado, Max explicava cada detalhe.
	Vov fez algumas roupas idnticas s que Elvis usava nos shows.
	Por qu?
Max deu de ombros.
	Sei l. Acho que  o hobby dela. Vov adora coisas berrantes. Espere at v-la. Ela usa uma venda num dos olhos, s por diverso. Ela  apaixonada pelo Elvis!
Travor olhou em volta.
	Disso no tenho a menor dvida. Mas, e sua me? Ela tambm  uma... tiete?
	De jeito nenhum. Mame  dona de metade do estdio e vive brigando com a vov. Acha que devemos desistir de tudo isso e viver uma vida normal.
Travor sorriu.
	E o que seu pai acha disso?
	No tenho pai. Veja isto  Max falou, segurando um batom.  Esta  a cor original do "Love Me Tender". Vov tem tudo e...
Travor no queria saber dos tesouros da vov. Queria continuar falando do pai do garoto, mas o menino mudara de assunto muito depressa. Talvez a questo envolvesse algum trauma. Travor decidiu usar um pouco de psicologia infantil. Pousou a mo no ombro de Max.
	Tambm no tenho pai. O meu morreu quando eu era bem jovem e...
	Meu pai tambm morreu. Sofreu um acidente de nibus quando estava a caminho de casa, para se casar com minha me. Tocava baixo com os Roughhousers. Mame disse que ele foi o melhor baixista da histria do rock, e que os Rough housers seriam famosos. Morreram todos. Um trem os pegou. Mame fica muito triste quando falamos nisso. O que vai vestir para dormir?
	Bem, eu...
	Acho que vov no tem nenhum pijama de homem, mas quando se levantar de manh, voc poder usar uma daquelas roupas. Voc vai ficar radical!
	Obrigado, Max. Por que no vai dormir, agora. Teve uma noite e tanto! Afinal, salvou Elvis e apareceu no noticirio.
Max sorriu.
	Foi a melhor noite da minha vida. Melhor do que a noite em que vov e eu entramos nos camarins para ver Garth Brooks. Nem fomos apanhados, porque ela conhece todos os truques. Mas, s vezes, acho que os guardas no fazem nada por causa da idade dela. Faz muitos anos que vov faz isso.
	Sua av deve ser uma pea  Travor comentou.
	E   Max confirmou orgulhoso.  Espere at conhec-la.
Travor empurrou o menino na direo do quarto.
	Ah, duvido que eu v conhec-la. Sua me disse que ela vai ficar mais uma semana em...
Max sacudiu a cabea com expresso sria.
Mame no est raciocinando direito. Quando vov ouvir dizer que Elvis est em Memphis, vai pegar o primeiro avio de volta para casa. Ela voou para Michigan, quando voc estava l! Quero dizer...
Travor fez uma careta e ps Max para fora.
	Boa noite, garoto.
	Vai conhec-la. Eu garanto  Max insistiu, j do outro lado da porta fechada.
	Que Deus me ajude  Travor murmurou, erguendo os olhos para o teto e descobrindo que estava coberto pelo mesmo tipo de psteres que enfeitavam as paredes.  Vov s pode ser uma maluca.
Apanhou uma das fotos de Elvis nos muitos porta-retratos sobre o mvel e foi at o banheiro. Parou diante do espelho e comparou o prprio reflexo com a fotografia. Sim, eram parecidos. Ora, ele sempre soubera disso. Afinal, sua me vivia dizendo que, se perdesse peso, ficaria to bonito quanto Elvis Presley. Mas isso no passara de uma brincadeira.
Em sua cidade natal, ningum jamais dera importncia  semelhana. E Travor conhecia o motivo. Em Rattan, Texas, a populao de setecentos habitantes o conhecia como o gordinho. E seria sempre assim, pois nada mudava em Rattan. Ele seria sempre o filho gordinho de Dorothy Steele.
Quando a me fora atacada pelo cncer, Travor ficara a seu lado e cuidara dela durante todo o perodo da doena que, finalmente, lhe tirara a vida. E fora nessa poca que comeara a perder peso, correndo e exercitando-se. Ento, Travor vendera o estabelecimento da famlia e investira em alguns poos de petrleo que o primo estava explorando. Como que por milagre, o dinheiro comeara a se multiplicar. Era engraado o modo como as coisas aconteciam, pensou. Fizera tudo por se sentir frustrado e deprimido. Lembrou-se de Celeste Fillmore. Teria sido ela, tambm, um resultado de sua frustrao e depresso? No queria sequer pensar nela. Fora por causa dela que Travor decidira deixar Rattan, fugir... encontrar-se. E estou me divertindo um bocado fazendo isso.
Saiu do banheiro, recolocou a fotografia no lugar e abriu o armario.  Ora a vov fizera mesmo muitas fantasias de Elvis. 
Fechou a porta devagar e suspirou. A me de Erin era mais que uma f devotada. Pensando melhor, todos ali pareciam muito longe da normalidade. O melhor que teria a fazer seria deixar Memphis o mais breve possvel Olhou em volta mais uma vez e decidiu ir dormir no sof da sala. Alguma coisa no quarto de Lou o deixava profundamente triste.

CAPITULO III

Erin olhou para o facho de luz que entrava pela persiana. Mal conseguira dormir, esperando pelo rudo de sirenes e de batidas na porta. Agora, j amanhecera. Por que ainda no vieram atrs de ns?
Uma viso de Elvis sempre provocava publicidade. Em agosto, era ainda pior. Durante o ms de aniversrio da morte dele, todos os canais de televiso exibiam seus filmes e documentrios sobre sua vida. Todos os jornais publicavam estrias, notcias de vises. Nada vendia mais do que manchetes sobre Elvis.
Erin atirou as cobertas para o lado e levantou-se. No trocara de roupa para dormir, pois queria estar preparada para a necessidade de uma fuga repentina. Alm do mais, no considerara sensato vestir uma fina camisola, com o estranho dentro de casa. Havia muita eletricidade entre eles. Ou seria um exagero de sua imaginao? No se lembrava de ter se sentido to afetada pelo pai de Max, nem do suor nas mos, ou das palpitaes no corao. Provavelmente, pensou, aquilo era amor de verdade. S paixes de adolescente provocam suores nas mos e coraes disparados. E, ainda, havia o fato de ela nunca ter se sentido atrada por algum que sequer lembrasse Elvis Presley. Ao contrrio, evitava qualquer homem envolvido com a indstria da diverso, pois achava que no havia futuro naquela rea.
Ainda assim, quando Travor Steele a fitava, era muito diferente de quando Tommy, do Quick-Serve a fitava. E Tommy no era menos atraente. Quando Travor Steele sorria, um toque se seduo pairava no ar. Ele chegara a piscar para ela, fazendo o sangue ferver em suas veias.
	Estou agindo como uma adolescente  falou em voz alta e aproximou-se da janela.
A vizinhana parecia deserta e quieta. Comeou a cantarolar Love Me Tender e logo parou, furiosa consigo mesma. Se nem sequer gostava da msica boba, por que os acordes pareciam invadir sua mente? Sabia a resposta: por causa de Travor Steele.
Tratou de afastar o texano da memria, e olhou para o jardim. De repente, a sra. Tillotson passou correndo pela janela, vestindo um roupo e uma touca de dormir. Ela se lembrou da pickup! Assistiu ao noticirio!
Erin correu at a porta da frente, chegando  varanda antes de a sra. Tillotson passar na ponta dos ps.
	Bom dia, sra. Tillotson  cumprimentou-a e sentiu profunda satisfao por ter conseguido assustar a vizinha. 
	Ah, sim... Bom dia, Erin. Eu estava procurando pelo jornal e...
	O seu ou o nosso?
	Bem, eu... o meu, claro. Por que eu iria querer o seu jornal?
Erin sorriu.
	Est no nosso jardim.
A sra. Tillotson olhou em volta chocada, como se no fizesse a menor ideia de como chegara ali.
	Deve ter ouvido que Elvis est na cidade  Erin co mentou sem prembulos.
	Ora, no... Quero dizer... Ele est na cidade?
	Sim. Apareceu numa lanchonete de Memphis, ontem  noite. Ele sempre foi louco por hambrguer. Uma pickup branca salvou-o, antes que ele fosse destroado por ias enlouquecidas. No  incrvel?
	Fs... pickup branca?  Os olhos da sra. Tillotson dirigiram-se  porta fechada da garagem.
	Por acaso, a senhora estava a caminho da nossa garagem, a fim de verificar o nmero da placa da nossa pickup branca?
A mulher idosa corou.
	Como pode perguntar uma coisa dessa, Erin? Sei o que pensa da convivncia com estrelas. E, certamente, voc no...
	No, eu no salvaria o Homem-Aranha de um mata-moscas eltrico. Agora, pode voltar para casa, sra. Tillotson, pois Elvis no est aqui.
	Ora, nunca pensei isso!
	Somos duas  Erin murmurou e observou a vizinha afastar-se.
	O que est acontecendo?  inquiriu uma voz atrs dela.
Erin virou-se e perdeu o flego diante da viso  sua frente. Teve de respirar fundo para se controlar.
Travor Steele estava parado diante dela, vestindo um familiar macaco de couro preto, aberto at a cintura. Os plos do peito pareciam saltar para fora, provocantes.
	Quem disse que podia mexer no armrio de minha me?  Erin finalmente perguntou.
	Max  Travor respondeu.
	Max  ela repetiu, dirigindo-se para a cozinha.
	Ei, no fique zangada  Travor falou, seguindo-a.  Foi s uma brincadeira... pelo seu filho. Ele realmente acreditou que eu era Elvis, no incio. Pensei que...
	No pensou coisa alguma  Erin interrompeu-o e ps-se a preparar a cafeteira.
	Pensei muito em voc.
A voz dele era um murmrio rouco, quase ertico. Sentindo as faces arderem, Erin nem se atreveu a virar para fit-lo. Estava chocada pela reao do prprio corpo  simples presena dele.
Fingindo limpar o balco, ouviu o rudo da cadeira arrastando no cho. Ele estava se sentando. O silncio tornou-se pesado, e Erin concentrou-se na cafeteira, ignorando o homem maravilhoso atrs dela.
Travor estudou o corpo mido e bem feito, chegando a imaginar seu calor sob suas mos. Sorriu ao reparar como a cala jeans colava s coxas e as ndegas. A camisa que ela usava era a mesma da vspera. Agora, porm, estava amarrada na cintura, e muito amarrotada.
Ela dormiu vestida. No confiou em mira. Divertiu-se com a ideia. Sempre tivera fama de tmido com as mulheres exceto por aquela nica vez. Ah, que grande erro cometera. Ainda podia sentir a humilhao de estar no altar, esperando... A noiva no aparecera. Corriam boatos de que ela havia fugido com um vendedor, mas Travor nunca soubera se era verdade. E nem se importava. S queria esquec-la, o que era impossvel. Jamais se esqueceria da vergonha que passara. Girou o anel de diamante no dedo. Nunca mais, pensou. Ento, voltou a concentrar-se em Erin.
	Posso ajudar?  perguntou, adorando o efeito que a pergunta inesperada causou sobre ela.
Erin sobressaltou-se e virou-se para fit-lo. Ento, desviou os olhos dos dele e suspirou.
	Sim, voc pode ajudar, tirando essa roupa ridcula.
Sei que foi ideia de Max. Conheo meu filho. Quer aproveitar ao mximo esta situao, mas eu tenho certeza de que isso tudo vai acabar muito mal.
	O que poderia acontecer? No h mais ningum aqui para me ver assim, alm de voc e seu filho.
	Escute. Se a imprensa aparecer e voc estiver vestido assim...
	No vo aparecer. Meus documentos esto na mochila. A carteira de motorista tem a minha fotografia. E, quando ouvirem aquela fita...  Travor caiu na risada.
Erin revirou os olhos.
	J sei. Voc no passa de um rapaz do interior. Infelizmente, este foi o maior acontecimento em Memphis nos ltimos anos. Temos nossos ssias e imitadores, mas nenhum deles foge da multido. E voc fugiu, agindo como Elvis teria agido. Portanto, mesmo sendo Travor Steele de Rattan, Texas, mesmo que existam provas irrefutveis da sua identidade, a imprensa vai explorar esse caso at as ltimas consequncias. 
 Virou-se para fit-lo.  Ser que no aprendeu nada com aquela multido enlouquecida, ontem  noite?
Travor voltou a rir e Erin teve arrepios ao ouvir aquele som provocante. O desejo de toc-lo era quase irresistvel. Atribuiu as reaes indesejveis  sua vida sexual adormecida. Amaldioou Kyle Duncan por t-la abandonado, por ter morrido justamente quando ela e Max precisavam dele. E amaldioou-o por nunca ter provocado nela sensaes to intensas.
Elvis Presley tambm jamais a afetara, embora ela houvesse assistido a todos os seus filmes. Ento, por que se sentia daquela maneira diante de Travor Steele?
Mais uma vez, ouviu o rudo da cadeira arrastando no cho.
	Sei que estou lhe causando uma poro de problemas...
Ele estava se aproximando. Erin podia senti-lo. Um sentimento de nervosismo tomou conta dela.
	No planejei nada disso.
Erin sentiu o calor do corpo dele e assustou-se com as sensaes que a invadiram. Fechou os olhos.
	Quer, por favor, virar-se e olhar para mim?  Travor pediu, segurando-a pelos ombros e forando-a a virar-se.
Erin abriu os olhos, mas tudo o que viu foram os plos negros no peito largo.
Ele segurou-lhe o queixo e fitou-a nos olhos.
	Sinto muito. O que acha que devemos fazer? Farei o que voc quiser.
As palavras dele se perderam na torrente de fantasias que invadiram a mente de Erin. Ela s conseguia pensar em abra-lo, colar o corpo ao dele.
	Erin...
Ela no foi capaz de responder, pois estava embriagada pelo som daquela voz, pelo odor msculo que ele exalava. Erin nem se moveu, ao ver a boca de Travor aproximando-se da sua. O toque dos lbios macios, o hlito quente contra a sua pele, confirmaram o que seu corpo j previra.
	Ah, voc  to quente quanto parece...  deliciosa  Travor murmurou com voz ainda mais rouca.  Passei a noite inteira acordado, pensando em voc.
Erin prendeu a respirao, com medo de mover-se, de que ele fosse adiante... ou de que parasse. No tinha foras para lutar contra os sentimentos confusos que a invadiam.
Nem queria.
Precisou de toda a sua fora de vontade para afastar-se. Sem olhar para Travor, virou, respirou fundo e voltou a ateno para a cafeteira. Acalme-se. Mantenha a cabea fria.
Conseguiu servir duas xcaras de caf e estender uma para Travor, consciente de que ele estava atento ao tremor em suas mos. Ento, encarou-o. No podia deix-lo perceber como a afetara.
Ele parecia to embaraado quanto ela. Otimo!
Voltou a olhar para ele e quase explodiu em gargalhadas histricas quando viu o rosto pintado na xcara que Travor segurava: era idntico ao dele. Estava perdendo o controle. Talvez devesse trancar-se no quarto, ou melhor, sumir daquela casa.
Pensava numa boa desculpa para sair dali, quando ouviu a porta da frente bater.
	Oi, mame. Oi, Travor. Peter, o vizinho da frente, est comigo. Vamos para o meu quarto.
Erin ficou tensa ao ver o filho e o amigo passarem pela porta da cozinha, fitando-os com interesse mal disfarado.
	Pensei que ele estivesse dormindo  Travor falou.
	Eu tambm, mas deveria ter imaginado que no. Afinal,  neto de Lou Weller, e s Deus sabe o que est aprontando.
Lou Weller? Aquela era a primeira vez que o sobrenome de Lou era mencionado. Travor lembrou-se do que Max lhe contara na noite anterior. Ele no conhecera o pai. Travor disse a si mesmo para ter cuidado. Afinal, Erin poderia estar procurando um pai para seu filho. Antes que pudesse pensar melhor no assunto, Max e Peter voltaram a passar pela porta da cozinha. Depois de olharem para Travor, saram da casa.
 Viu? O garoto nem se abalou com a minha aparncia. Talvez no seja de Memphis.
Antes que Erin pudesse comentar, a porta da frente voltou a bater. Segundos depois, Max passou pela cozinha, acompanhado de um garoto loiro que ela nunca vira antes. O menino observou-os com curiosidade.
Travor ia dizer alguma coisa, mas Erin ergueu a mo para silenci-lo. Em seguida, os dois garotos passaram de novo, saindo da casa.
Da terceira vez, Erin estava preparada. Max entrava com mais um estranho, quando ela o surpreendeu no hall de entrada. Segurando-o pela gola da camisa, perguntou:
	Muito bem, quanto conseguiu ganhar at agora?
Travor apurou os ouvidos, esperando pela resposta de Max.
	Nove dlares  Max murmurou sem jeito.
Travor sorriu. Ora, o garoto est ganhando dinheiro com a minha presena. Garoto esperto! Sentiu-se orgulhoso por Max, mesmo sabendo que a me dele tinha outra opinio.
	Seis  o outro menino corrigiu-o.  Como no vi nada, vai ter de me devolver o dinheiro.
Ah! Um cliente insatisfeito! Travor pensou e foi at a porta da cozinha.
	Nossa!  o menino exclamou, empalideceu e correu para fora.
Max riu.
	Viu isso, mame? Ele gastou o dinheiro por uma boa causa. Obrigado, Travor.
Travor piscou para Max e, ento, virou-se para Erin com ar inocente.
	Muito espertos!  ela reprovou.  Isso  tudo o que precisamos! No basta terem o nmero da placa da nossa pickup, e voc fica trazendo estranhos e cobrando ingressos para o show! Onde est encontrando tanta gente, s oito e quinze da manh?
Max fitou-a surpreso.
	Ora, mame, d uma olhada pela janela.
O gramado estava repleto de gente. Entre eles, encontrava-se a sra. Tillotson, que acenou.
Erin fechou os olhos e suspirou. Travor engoliu seco. Max sorriu.
	Pensei que soubesse que eles estavam a  falou.
Erin olhou para o filho.
	Como eu podia saber, se estava bancando a anfitri para o nosso superstar?  Virou-se para Travor, que ainda espiava pela persiana.  Afaste-se dessa janela!
Travor afastou-se de um pulo, sobressaltado pela ordem irritada.
	Ei, voc est mesmo...
	J sei  Travor interrompeu Max.  Animal.
	Radical!  Max corrigiu-o,
	Ridculo!  Erin protestou, embora soubesse estar mentindo. Ele era, definitivamente, o homem mais bonito que ela j vira.  Se o virem nesse macaco de couro, vo derrubar a porta.
Travor e Max entreolharam-se confusos. Ento, foram para a sala e sentaram-se.
	O que devemos fazer?  Travor perguntou.  No acreditei quando voc previu que isto ia acontecer.
Erin fitou-o.
	Acredite, no fao o tipo dramtico.  Ento, virou-se para Max.  De onde vem aquela gente? Foi voc quem os reuniu l fora?
	No. A maioria so moradores da rua. Peter disse que todos assistiram ao noticirio e me reconheceram na nossa pickup. Ele queria vir ontem mesmo, mas a me dele no deixou. Disse que haveria outro ataque "quela casa maluca dos Weller".
	No deveramos chamar a polcia?  Travor sugeriu.  Estou me sentindo culpado por tudo isso, mas quem poderia imaginar...
	Deixe-me pensar  Erin pediu, sentando-se na poltrona.
Ainda bem que desliguei os telefones. O que mais posso fazer? O que Lou faria? Porm, Erin sabia a resposta: Lou tiraria o mximo proveito da situao.
Travor esperou em silncio, assim como Max. Ento, ele viu a porta da frente se abrir devagar. Um rosto emoldurado, por cabelos loiros e adornado com uma venda negra apareceu. Em seguida, ouviu-se um grito horrendo e a mulhe: desabou no cho.
	Vov!  Max gritou.
	Ah, meu Deus!  Erin murmurou.
	O que...  Travor levantou-se, observando os dois correrem para a figura inerte.
	Ela teve um ataque cardaco!  Max diagnosticou.
Ento, a multido comeou a entrar, ignorando a mulher desmaiada no cho.
	L est ele!
	Segurem-no!
	Elvis...  o Elvis!
Travor sentiu-se como se estivesse em um daqueles antigos filmes de horror. O medo fez o sangue gelar em suas veias.
	Corra, Travor! Corra!  Erin gritou.
Ele hesitou.
	Para o quarto!  ela insistiu.
Travor escapou para a esquerda, derrubando um abajur, ao esquivar-se de uma gorducha com roupas coloridas. No corredor, o som de passos abafados indicava que estava sendo seguido.
Entrou no quarto e bateu a porta, sentindo-se grato pelo trinco resistente. Apoiou o corpo na porta e respirou fundo. O corao estava disparado.
A porta vibrou ao ataque brutal dos assim chamados amigos e vizinhos. Travor afastou-se furioso.
A situao fugiu ao controle. Isto j foi longe demais.
Respirou fundo vrias vezes e endireitou os ombros. Ento, forou-se a relaxar e caminhou na direo da porta. Poria um ponto final quela histria de uma vez por todas.

CAPITULO IV

O corao de Erin batia descompassado, en-' quanto ela e Max tiravam Lou do cho e a levavam at o sof. Aquilo era demais: a multido gritando, a me desmaiada. Lembrou-se daquele dia horrvel, no As-trodome, em Houston, no Texas. Daquela vez, porm, Lou no desmaiara. Simplesmente perdera o equilbrio e fora pisoteada pelos fs. Sofrera ferimentos srios: tivera a clavcula e trs costelas quebradas. Erin estremeceu  lembrana. Fora uma experincia assustadora. E claro que Lou soubera tirar proveito da situao, produzindo vendas coloridas para um olho s, em comemorao  ocasio.
	Voc est bem, vov? - Max perguntou, abanando-a vigorosamente com uma revista.
Lou tocou-lhe a face.
	Estou bem, querido. Mas quem  ele?  Virou-se para Erin.  Voc o interrogou? Ele lhe contou alguma coisa?
Erin irritou-se ao perceber o sntusiasmo da me.
	Sei quem ele no   respondeu em tom rude.  Tem certeza de que est bem? Por que desmaiou?
	Foi como nos velhos tempos. Senti que tinha de fezer isso.
	Est dizendo que fez de propsito? Como pde nos assustar assim? Voc devia...
Um rudo alto vindo do corredor interrompeu Erin. A Multido estava se tornando violenta. Gritavam e esmurravam a porta do quarto.
Temos de ajud-lo, mame  Max falou.
Um arrepio percorreu a espinha de Erin. Queria ajud-lo, mas no teria coragem de enfrentar aquela multido. Seu medo era profundo. S ajudara Travor na noite anterior porque estava segura dentro de sua pickup.
	Ele vai ter de escapar sozinho. Se for esperto, pular a janela e correr at chegar em casa, no Texas.
	Texas? Ele  de l?  Lou inquiriu.  O que o trouxe para c? Est apresentando algum show?
	Um show?  Erin repetiu confusa.
	Ser que no olhou direito para ele, minha filha? Ningum tem aquela cara por acaso. E bvio que veio me procurar, a fim de entrar para o meio artstico.
Em momento algum passara pela cabea de Erin que Travor Steele poderia estar tentando ser descoberto. Sentiu-se uma grande tola. No queria que ele fosse mais um imitador. Queria que fosse exatamente o que dissera ser. Em seu subconsciente, Erin recusara-se a aceitar a explicao mais lgica. E fazia sentido.
	Sim, acho que tem razo, mame.
Uma porta batendo no fim do corredor interrompeu-lhe os pensamentos.
	Saiam daqui! No quero machucar ningum, nem que ro me machucar.
A multido voltou pelo corredor, caminhando de costas, tropeando uns nos outros.
Ento, Travor apareceu, empunhando o velho violo Was-hburn pelo cabo, como se fosse uma arma.
O corao de Erin bateu mais depressa. Os cabelos de Travor estavam revoltos, sua pele estava coberta de suor, e o macaco estava aberto at a cintura. Era como se Elvis houvesse sado diretamente de um show para o corredor da casa de Lou.
Era evidente que a pequena multido estava fascinada pela aparncia dele. Observavam-no em silncio, estudando-o da cabea aos ps, e murmurando palavras incompreensveis. Erin no descartou a possibilidade de aquelas pessoas saltarem sobre ele de repente, arrancando pedaos do macaco, cabelos e punhados de carne.
Travor no esperou que se manifestassem.
	Deviam ter vergonha! Que tipo de amigos so vocs? Apontou para Lou com o violo.  Invadiram a casa desta senhora, e quase a pisotearam.
	Meu Deus, ele  bom mesmo!  Lou sussurrou.
Erin sorriu, apesar de tudo.
	No se esquea:  o charme Presley.
	Vocs invadiram propriedade alheia e devem desculpas a esta famlia.
Erin, Lou e Max encaram a multido, que tambm os encarou. Ningum parecia arrependido.
	Voc nos deve!  a sra. Tillotson deu um passo  frente com ar indignado.
	Eu?  Travor perguntou.
Surpreso pela alterao no rumo da conversa, ele segurou o violo com mais fora e olhou para Erin com ar de interrogao. A expresso inocente fez o corao dela doer.
	Sim, voc nos deve. Queremos saber por que desapareceu e fingiu estar morto todo esse tempo. Como pde fazer isso conosco?
Muitas daquelas pessoas concordavam com a sra. Tillotson. Comearam a queixar-se em voz alta, mostrando-se muito zangadas.
	Tem ideia de quanto tempo ficamos na fila para dar uma simples olhadinha no seu corpo? E, agora, sabemos que nem era voc.
Travor tentou dizer algo, mas o burburinho abafou-lhe a voz.
	Todo aquele sofrimento... todas as lgrimas... No faz ideia da dor que nos causou.  A sra. Tillotson comeava a tornar-se dramtica.
	Para no falar da fortuna que gastamos naqueles ltimos souvenirs  um homem acrescentou.
Ameaaram aproximar-se, mas Travor brandiu o violo no ar.
	No sou Elvis Presley!  berrou.
Todos ficaram em silncio, fitando-o com olhar magoado, como se ele houvesse desferido um golpe cruel. Travor suavizou a voz.
	Sei quanto querem acreditar que ele ainda esteja vivo, mas posso jurar que no sou Elvis.
Ningum disse nada. Era bvio que no acreditavam em nada do que Travor dissera.
	No sei como posso convenc-los.
Ele parecia to indefeso, que Erin teve vontade de correr para ele, defend-lo dos fs que s queriam arrancar-lhe alguns pedaos. Ento, disse a si mesma que ele provocara a situao, e ficou quieta.
	Olhem para mim. Pensem. Usem o bom senso. Tenho trinta e um anos!
Apesar de seus ressentimentos, Erin orgulhou-se da inteligncia dele. Certamente, as pessoas acreditariam nele agora.
	Quantos anos teria Elvis, hoje?  Travor inquiriu.
	Boa pergunta  Erin sussurrou.
Lou sacudiu a cabea.
	Boa tentativa, mas no vai funcionar. No queremos saber como Elvis seria hoje, pois sempre nos lembraremos dele como era antes.
Erin foi obrigada a admitir que a me estava certa.
	No tente nos enganar!  uma mulher gritou.  Voc no mudou nada.
	Vejam!  Travor lanou mo de um argumento de sesperado.  Tenho muitos plos no peito!
Todos olharam, mas no compreenderam.
	Elvis no tinha. Podem assistir aos filmes havaianos...
	Podem ser falsos!
	Voc pode ter depilado o peito, para fazer os filmes!
Desanimado, Travor deu-se conta de que pouco importava para aquelas pessoas a sua idade, ou quantos plos tinha. Queriam o seu Rei. Agitou o violo no ar.
	Est bem, vou lhes dar o que esto pedindo.
Erin imobilizou-se, esperando o que ele ia dizer. Tinha o pressentimento de que as palavras no a agradariam.
 Vou lhes dar uma explicao.  Travor olhou a sra. TiUotson nos olhos, respirou fundo e endireitou os ombros.  Vejam o que esto fazendo. A mesma coisa. O mesmo que faziam antes de eu... desaparecer. Nunca tive um pingo de paz ou sossego em minha vida.
Erin fitou-o boquiaberta. Lou suspirou. A multido emitiu um gemido coletivo. A transformao de Travor apanhou a todos de surpresa.
	Eu no podia sequer caminhar em meu jardim, sem que vocs tentassem destruir minhas cercas.
	Mas voc adorava seus ias  a sra. Tillotson argumentou.
	Sim, at vocs comearem a me atacar... No pude suportar mais.
	Como conseguiu desaparecer assim?  perguntou um homem.
Travor nem piscou.
	Atravs do servio de proteo a testemunhas especiais.
Erin mal respirava.
	Mame, voc tinha razo.  um imitador em busca do sucesso  falou, tentando livrar-se do n que se formara em sua garganta.
Lou voltou a suspirar.
	Ele  bom, de verdade. Sabe exatamente o que est fazendo.
	Radical!  Max exclamou.
Os trs assistiram s pessoas recuperarem uma atitude humana. A sra. Tillotson parecia vergada sob o peso da derrota. Os outros se mostravam muito embaraados.
Travor agitou o violo na direo da porta, e eles o obedeceram, saindo em silncio.
Erin soltou o ar.
	Ele nunca vai conseguir sair desta casa. Cavou sua prpria sepultura  murmurou.
	No se preocupe. Cuidarei dele  Lou assegurou-a 
	No conte com isso. Isso vai virar uma bola de neve, e ns no temos dinheiro para investir em...
	 exatamente o que espero que acontea: uma bola de neve.
	Esquea, Lou  Erin pediu.  No se envolva nisso. Lembre-se do que aconteceu da ltima vez que tentou trabalhar num projeto sobre Elvis. No temos cacife para bancar mais um...
	Desta vez vai ser diferente  Lou falou com firmeza.  Ele  exatamente o que venho procurando h tanto tempo.
	No temos dinheiro, Lou.
	Daremos um jeito.  Lou esfregou as mos.  Posso sentir as boas vibraes.
Erin sacudiu a cabea aflita.
	Por favor: No piore ainda mais as coisas.
Lou ignorou o pedido e observou Travor apoiado na porta.
	Estou preparada para ir at o fim  murmurou.  Custe o que custar. Sinto que esta  a minha ltima chance.
As duas mulheres fitaram-se. Erin deu-se conta de que teria de apoiar a me. Se Lou estava disposta a admitir que aquela seria a ltima vez, que no podiam mais cometer erros, ento, tudo seria diferente.
	Uma equipe de filmagem acabou de chegar  Travor anunciou.
Erin pulou e correu at a janela, e viu a sra. Tillotson aproximando-se de um jovem reprter, que empunhava um microfone.
	Parece que voc conseguiu  falou, lanando um olhar de reprovao para Travor.
Ele deu de ombros, suspirou e foi sentar-se na poltrona.
	No tinha escolha  declarou.
Sentia-se exausto. Precisava de um pouco de paz.
	Voc agiu como se fosse mesmo Elvis. Teremos uma reao de histeria no mundo inteiro  Max falou, e sentou-se no cho, olhando para Travor com admirao.
Depois de olhar para o menino, Travor fechou os olhos. No aguentava mais ser olhado daquela maneira. Queria poder apagar as ltimas vinte e quatro horas da mente, esquecer Elvis Presley, Memphis e a famlia Weller. Tudo aquilo o estava fazendo agir como tolo. Se algum no Texas soubesse... Sentiu algum aproximar-se. Abriu os olhos e deparou com Lou Weller.
	Est errado, sabia?
Travor preparou-se para mais um golpe.
	Sobre o qu?
	Sobre os fs e Elvis. Ele os adorava. Orgulhava-se do assdio e era muito bom para com eles.
Travor voltou a fechar os olhos.
	Desculpe. No tive a inteno de difam-lo. O que sei sobre Elvis no preencheria uma pgina.
	 mesmo? Ento, como sabia que ele tinha uma cerca em volta do jardim?  Lou inquiriu com ar acusador e hostil.
Travor itou-a.
	Esta  uma pergunta boba. Qualquer homem perseguido como ele, teria de construir uma cerca. Alm do mais, eu s estava tentando colocar aquela gente para fora daqui.
Travor suspeitou que Erin acreditara em suas palavras, mas isso j no importava. Lou, por outro lado, esboou um sorriso estranho.
	Meu nome  Lou  apresentou-se.
Ele no pde conter um sorriso.
	Sim, eu sei.
Embora no soubesse exatamente como aquela f em particular reagiria a ele, Travor tinha certeza de que ela seria capaz de consumi-lo. Teria de ser esperto para lidar com Lou e, no momento, sentia-se cansado, mentalmente esgotado. Fechou os olhos mais uma vez.
Lou soltou uma risada e, por entre olhos semicerrados, Travor examinou-a. Aquela era a av de Max, que gozava de privilgios, por causa da idade. Ora, a bela senhora passaria por irm de Erin, embora possusse algo que faltava  filha. Seria ousadia, ou descaramento? Talvez, fosse apenas autoconfiana, a certeza de que era senhora de seu prprio destino. Por outro lado, tal aspecto poderia ser mero resultado da venda negra no olho. Lou era mida como Erin, tinha cabelos loiros bem curtos, usava trs brincos em cada orelha e, surpreendentemente, pouqussima ma-quiagem. Uma coisa era evidente. Ela definitivamente tem planos para mim.
Teve a impresso de ver Erin aproximando-se com ar protetor, mas poderia ser apenas a imaginao produzindo o que seu desejo ordenava. Max continuava no cho, olhando fixamente para ele.
Lou quebrou o silncio.
	Vamos ligar a televiso e saber o que nos espera.  Apanhou o controle remoto e foi passando canal por canal. Max, precisamos de uma fita em branco. Quero gravar tudo.
Travor observou o menino inserir uma fita no vdeo. Erin aproximou-se.
	Ele tem uma motocicleta e uma mochila. Pode estar no restaurante, ou em poder da polcia.
	Vou encontr-la  Lou garantiu, sem tirar os olhos da televiso.
	Ele canta  Erin acrescentou em tom de acusao.
A expresso de Lou mereceria ser filmada. Travor sorriu. Ah, se elas ouvissem aquela fita! Mas no perderia tempo com explicaes, pois as duas certamente no lhe dariam ouvidos, nem acreditariam numa s palavra.
Voltou a fechar os olhos, tentando raciocinar. Tinha uma escolha. Poderia pr um ponto final na histria, sair por aquela porta e atravessar a multido, sofrendo apenas alguns arranhes. Ou, ento, poderia ficar por ali, entrar no jogo deles, e descobrir o que o futuro lhe reservava. A voz suave de Erin, que conversava com a me, chegou aos seus ouvidos. Travor lembrou-se do beijo que haviam partilhado pouco mais de uma hora antes. Fora delicioso.
Tomou sua deciso. Afinal, o que tinha a perder?
Erin desligou o chuveiro e comeou a secar-se com a toalha. O que Travor estaria fazendo? Estaria diante da televiso, ou espiando os fs de Elvis pela janela? Lou e Max haviam sado, a fim de tentar encontrar a motocicleta de Travor. Erin rezou para que no fizessem nada alm disso. Sabia o que a me era capaz de fazer em uma hora. Enquanto Erin era cuidadosa, sensata e hesitante nas decises que tomava, Lou era exatamente o oposto. Ela primeiro fazia, para depois pensar. Embora tivesse ideias boas, no se dava tempo para aperfeio-las. Era ansiosa demais.
Ora, Lou no faria nenhuma tolice, como marcar entrevistas para Travor. Erin pedira a Max que ficasse de olho na av e que tentasse mant-la afastada do banco.
Como se Max fosse capaz de impedi-la de fazer o que queria! Alm do mais, o menino admirava a av como uma verdadeira herona.
Erin voltou a pensar em Travor. Por que no percebera? Por que nem sequer suspeitara que ele estava tentando ser descoberto? A resposta era simples: estava atrada demais por ele. Havia concentrado toda a ateno nas reaes que ele lhe provocava, e se deixara enganar.
Tanto em casa, como no estdio, estava habituada ao movimento das estrelas em potencial. Especialmente, os imitadores de Elvis. Nenhum deles era como Travor. Eram muito altos, muito magros, muito gordos, mas todos tinham algo em comum: a fascinao por Elvis. E Lou usara cada um deles: em comerciais, jingles, festas particulares, comemoraes. Porm, nenhum fora o que Lou procurava para realizar seu grande sonho.
E, segundo as explicaes de Lou, ela jamais usara ningum. Na verdade, ajudara cada um deles a realizar seu sonho. Falando em artistas sonhadores...
	Ah, meu Deus! Esqueci completamente...
Erin apanhou o telefone, ligou-o na tomada e discou o nmero do estdio.
	B.C., vou lhe pedir para fazer uma coisa muito desagradvel.  Erin riu.  Tem toda razo... ligue para Kimbie Love. No poderei comparecer ao nosso encontro de hoje. Tente marcar para outro dia, sim? Obrigada, B.C. Fico lhe devendo esta.
E a dvida seria grande, Erin pensou, lembrando-se do gnio terrvel de Kimbie Love. A jovem tinha talento, mas ningum ainda conseguira canaliz-lo na direo certa. Erin tinha certeza de que era a personalidade difcil de Kimbie que os confundia. Se ela conseguisse acalmar-se, ser menos detestvel, talvez fosse possvel encontrar a melhor maneira de promov-la. Erin comeava a acreditar que no deveriam ter lhe dado um contrato.
Mas era impossvel prever o futuro, pensou Erin, enquanto vestia shorts e uma blusinha de vero. Como Lou dizia, Kimbie Love era diferente, e poderia acabar se revelando exatamente o que o Star Music Studio precisava.
E Lou tambm dissera que Travor Steele era diferente. Ora, Erin soubera disso desde o incio, embora no fosse capaz de dizer por que ele era diferente. Ou por que est mentindo... E est mentindo.
A cena na sala provara isso. Ele interpretara Elvis com tamanha facilidade, que era bvio que j fizera o mesmo muitas vezes. No restava dvidas de que se tratava de um imitador. Mas, ento, por que no admitia o fato?
S um rapaz do interior do Texas. A explicao parecia to boa. Por que no podia ser verdade? Olhou para o telefone. Talvez eu possa descobrir mais sobre ele.
Apanhou o telefone e discou um nmero.
	Informaes, por favor, em Rattan, Texas.
Erin no demorou a obter o nmero de um tal de Travor Steele. S restava descobrir se era a mesma pessoa. Discou: nove, zero, trs... nove, oito, quatro...
	Al?  uma voz feminina atendeu.
Erin ficou confusa. Ele  casado1?
	Eu gostaria de falar com Travor Steele, por favor.
Ouviu ces latindo.
	Espere um minuto. Os cachorros esto perseguindo aquele gato que apareceu ontem por aqui  a mulher disse, como se Erin soubesse exatamente do que ela estava falando. Depois de alguns gritos e o estrondo de uma porta sendo fechada, a mulher voltou ao telefone.  Travor no est... j faz algum tempo. Quer deixar recado?
	Voc ... Ele...  Erin no conseguia pensar numa maneira educada de perguntar  mulher quem ela era. Acabou descobrindo que no seria necessrio.
	Sou Nellie, do outro lado do pasto. Estou apenas cuidando da casa dele e alimentando os animais, enquanto ele est viajando. Sujeito maluco... sumir daquele jeito, numa motocicleta.
Era ele!
	Vai acabar se matando. A me dele jamais aprovaria suas atitudes.
Erin decidiu tirar vantagem da eloquncia da mulher.
	Por qu?
	Ora, Dorothy Steele, que Deus a tenha, foi a mulher mais crist que j vi na face na terra. No gostava de dar sopa para o azar. Tenho certeza de que no permitiria motocicleta, nem televiso em sua casa. Travor abusou, comprando aquela mquina barulhenta e aquela tela enorme. Eu me sinto como se estivesse no meio do filme. Se Deus ajudar, Travor vai acordar e voltar ao normal. Estive pensando, e acho que ele est na crise que a Oprah falou no outro dia.
Erin sorriu. Travor no parecia estar atravessando crise alguma.
	Talvez tenha razo. J vi isso acontecer com os melhores homens. Sabe quando o sr. Steele pretende voltar? perguntou.
	Ele me disse que voltaria quando voltasse. No  coisa de maluco? Ficou muito irresponsvel depois que investiu naqueles poos de petrleo. No d a mnima para suas razes.  claro que pensei sobre isso, tambm, e acho que a aparncia dele est interferindo.
O corao de Erin disparou.
	Aparncia?
	Sim, senhorita. Ele est se achando bonito, agora que resolveu levar uma vida saudvel. Costumava comer todos os dias no Chicken Hut do Herm, mas agora no come frituras. Perguntou ao Herm se ele no podia fazer galinha assada, mas Herm disse que no pode mudar a comida do restaurante, s para agradar Travor. O garoto no  mais o mesmo. Corre todo dia, de manh e  tarde, de shorts e aquela camiseta amarela, sem mangas. Ele nunca se vestiu assim. Aposto que Dorothy est se revirando no tmulo.
Erin conteve uma risada. No seria aconselhvel irritar Nellie. Era evidente que o pessoal de Rattan estava de olho em Travor, todos muito chocados com sua mudana de hbitos.
	Sra... Nellie, pode me dizer com quem o sr. Steele se parece? Diria que ele lembra... Elvis Presley?
Uma gargalhada explodiu do outro lado, to alta, que Erin teve de afastar o fone do ouvido.
	Minha nossa! Elvis Presley! Eu sabia que ele me lembrava algum!
	Ento, ele se parece mesmo com Elvis.
A mulher riu mais um pouco, antes de voltar a falar.
	Travor estava mesmo envolvido com a tal de Celeste Fillmore, que vivia na casa dos Marple, em Cherokee Ridge. Acho que foi obra de Deus ela ter fugido com aquele vendedor de seguros. Ou seria de panelas? Bem, Celeste planejou um grande casamento, convidou a cidade inteira, e no apareceu. Isso foi quando ela trabalhava no Chicken Hut de Herm.
Travor ia l toda noite, depois do trabalho. Acho que na moraram por mais de um ano.  claro que todos sabiam que ela o estava fazendo de bobo. Travor estava comeando a ganhar dinheiro e lhe dava presentes maravilhosos. Comprou at o maior anel de diamante que j apareceu nesta cidade. E no comprou aqui, pois no existe pedra como aquela em Rattan.
Erin no queria ouvir falar de Celeste Fillmore. Sentiu-se ultrajada por Travor, furiosa com Celeste por envergonh-lo diante da cidade inteira. Quem ela pensava que era, afinal?
	Elvis Presley  Nellie estava dizendo em tom pensativo.  Eu no tinha percebido antes, mas agora que mencionou... Acho que foram os quilos que ele perdeu. Nunca o vimos to magro. Ele sempre foi enorme.
	Travor era gordo? Ele perdeu peso?
De repente, Nellie ficou desconfiada, como se s ento se desse conta de que conversava com uma estranha.
	Quem est falando? Ouvi contarem que tem gente que liga para a casa dos outros e, se ningum atende, roubam tudo.
	No... Eu...
	Bem, por via das dvidas, vou ligar para o xerife Barnes agora mesmo, e pedir que fique de olho na propriedade de Travor. Garanto que ele no...
Erin recolocou o fone no gancho devagar, antes de desligar o telefone da tomada. Sentia-se como se a tal Nellie soubesse exatamente quem ela era e onde estava. O corao batia acelerado. Ento, Travor Steele era mesmo somente um rapaz do interior, que, por acaso, parecia-se com Elvis Presley. Estremeceu e esfregou os braos com fora. Por alguma razo, sentia que ele era muito, muito mais que isso. 
O gramado estava repleto de reprteres e fs de Elvis. Travor assistia ao canal local e tinha uma viso perfeita da casa de Lou, bem como do que estava se passando do lado de fora da porta. Sentiu-se como um refm.
Lou e Max haviam sado mais de uma hora antes, sem dizer para onde. Lou o instrura para no abrir a porta, nem atender o telefone. Ento, queixara-se de o telefone no estar tocando. Antes de sair, ordenara a Travor para no dar nenhuma entrevista.
Como se eu fosse fazer isso!
Erin desaparecera nos fundos da casa. Travor gostaria que ela lhe fizesse companhia, conversasse com ele. Tinha muitas perguntas a fazer. Como por exemplo, o que poderia esperar de Lou Weller. E quanto tempo a imprensa ficaria acampada do lado de fora da casa. Lou tinha planos para Travor e ele poderia jurar que se tratava de planos muito exticos. Comeava a perguntar-se onde havia se metido e por que no ia embora. Seria Erin o motivo de ele estar fazendo papel de bobo? Ora, no estava se fazendo de bobo por ningum. Estaria, no fundo, gostando de tudo aquilo?
No tinha uma resposta para essa pergunta. Ora, ter ums infncia difcil tinha suas sequelas.
Perdido em pensamentos, deitou-se no cho e comeou fazer flexes, pois elas o ajudavam a raciocinar melhor. As-; sim como as corridas, que estavam fora de questo. Perguntou-se o que estaria acontecendo em Rattan. At agora, no sentira saudade de casa. Nellie estaria cuidando bem dos cachorros? E Doe, estaria ansioso para receber a fita j que Travor estava preparando? Travor continuou a fazer flexes. O macaco de couro era justo, mas no chegava a impedir-lhe os movimentos. Dez... Onze...
Erin observou o couro preto colado aos ombros largos. Absorveu a voz baixa, que recitava os nmeros. Seus olhos passearam livremente pelas costas bem desenhadas, as ndegas, as pernas. 
	Ele era enorme  Nellie dissera.
Era difcil de acreditar. Parecia no haver um grama de gordura naquele corpo. E, na noite anterior, quando ele ficara sem camisa, parecera... delicioso.
Erin j vira outros homens fazendo flexes antes, mas nenhum deles a perturbara daquela maneira. Bem, nunca ningum a perturbara assim.
Os movimentos erticos do corpo  sua frente, erguendo-se, descendo para o cho, provocavam-lhe ondas de desejo.
	Cem  ele suspirou e descansou.
Erin despertou de seus devaneios e foi depressa para o sof. Ao sentir os olhos dele sobre si, desejou ter vestido jeans, no shorts. Tentou ignor-lo, mas descobriu que no era capaz de ignorar as sensaes que ele lhe despertava.
	Ol  Travor falou, levantou-se do cho e sentou-se numa poltrona.
Estava ofegante e a pele brilhava de suor.
Ficou zangado quando Erin no respondeu, mas decidiu que faria o jogo dela... assim que descobrisse qual era.
Examinou-a desde as sandlias amarelas at os cabelos loiros, ainda molhados. Estava tensa. Seria incapaz de relaxar?
Ela olhava fixamente para a televiso. Travor olhava fixamente para ela. Erin no parecia interessada em conversar. Mas eu estou, ele pensou.
	Todas as suas previses foram acertadas. O que acha que vai acontecer agora?
Erin franziu o cenho para a televiso. Os trs garotos que Max trouxera para dentro de casa pela manh estavam sendo entrevistados. Ela apontou para a tela.
	Minha previso  de que, na prxima vez que seus fs entrarem por aquela porta, vo faz-lo em pedaos.
	Obrigado. Gosto de saber o que me espera  ele falou, sem compreender a hostilidade de Erin.
Ela tambm se chocara com o prprio tom de voz. Por que estava to zangada? Uma cena criou-se em sua mente: Travor, sentando  mesa de um restaurante fast food, entregando um anel de diamante para uma falsa loira, coberta de maquiagem. Sentiu-se irritada pelo cime irracional. Tambm se sentiu irritada pela beleza de Travor, e pelo plano de Lou para ganhar dinheiro com isso. Na verdade, pensou, estou irritada com toda a situao. Isso, para no falar da tal de Nellie. Por que ela tinha de contar a vida dele inteira?
	Tornei as coisas ainda mais difceis, no ?
A voz profunda e sensual interrompeu os pensamentos de Erin, mas ela sabia que Travor se referia ao modo como reagira aos fs.
	Estou desconfiada de que voc sabia o que estava fazendo. Conseguiu o que queria.
Travor mostrou-se confuso.
	Tudo o que eu queria era que sassem daqui. No sei porque agi daquela maneira. Aconteceu. As palavras simplesmente escaparam.
Erin emitiu um som pouco feminino.
	Voc no gosta de mim, no ?  Travor inquiriu.  Ou  de Elvis que no gosta? Ainda no consegui descobrir.
Ela sentiu as faces arderem. Era bvio que ele no percebera a sua atrao. Otimo. Erin no precisava se envolver com um sujeito idntico a Elvis Presley. Passariam o resto da vida produzindo psteres, chaveiros...
	Quero saber qual  o seu jogo  ela falou, mudando de assunto.
	Meu jogo?
A expresso ingnua de Travor irritou-a.
	Voc pode ter enganado muita gente, mas no a mim.  bom demais.  perfeito. Cada movimento, cada nuance,  idntico a Elvis. O que voc quer, afinal?
Travor levantou-se e caminhou at o sof.
	Acha que preparei tudo? Muito esperta!
Erin endireitou-se, sentindo-se vulnervel com um homem to grande em p  sua frente.
	Digamos que sou apenas astuta. No me deixei cegar pelas estrelas.
Queria contar a ele que sabia do seu problema de obesidade, que sabia como ele se esforara para ficar parecido com Elvis, mas no o fez. No queria que ele soubesse que havia telefonado para a casa dele e conversado com a tal de Nellie. Ele vai me contar. Se for mesmo honesto, vai me contar.
Travor estudou-a por um longo momento.
Erin no suportou o silncio.
	Escute, est tudo muito claro  falou.  Voc aparece em Memphis, justamente nesta poca do ano, sem fazer a menor ideia de que se parece com Elvis? No me faa de boba! Lou e eu j trabalhamos com muitos imitadores de Elvis. A maioria tem de tingir os cabelos e usar maquiagem para conseguir o efeito que  natural em voc...
	Ento, acha que estou atrs de alguma coisa. E isso?
	Bem, faz sentido. Provavelmente, voc ouviu ou leu a respeito de Lou. Ela j foi famosa. At publicaram um perfil dela na Special Reports, h alguns meses. Lou ajudou muitos aspirantes a cantor.
Ele sacudiu a cabea.
	Sinto muito, mas nunca ouvi falar de sua me.
	Escute, sr. Steele, no  crime querer ser famoso, ser descoberto. S no gosto do modo como fez isso. J vimos de tudo. As pessoas fazem qualquer coisa para verem seus nomes em non, mas eu detesto truques, golpes, mentiras, e...
	No posso mudar minha aparncia, e juro que no h truques ou mentiras. Droga, eu nem sabia que me parecia com Elvis, at...
	Parecia? Ora, como voc pode ser to ingnuo?
	Senhorita, pouco me importa no que acredita.  Travor olhou em volta.   bvio que voc e sua me tm uma fixao por Elvis Presley. Eu diria que vai muito alm de simples amor de fs.
	No somos simples fs. Nunca fomos. ramos amigas. Ao menos, Lou. E, agora, ela quer manter a memria dele viva, e est fazendo o melhor que pode... Escute, voc age como ele. A voz, o jeito de falar, esse olhar ingnuo... Est claro que andou treinando.
Travor riu e virou-se.
	Voc  to ruim quanto aquelas pessoas l fora.
	Quem treinou voc?
	Est parecendo um cachorrinho agarrado a um osso novo. Diga-me uma coisa, existe uma grande demanda por imitadores de Elvis?
	Voc no sabe?  Erin inquiriu em tom sarcstico.
 Esteve em Las Vegas, ultimamente? Existem muitos imitadores l.
Travor ps-se a andar de um lado para outro. Erin no confiava nele. Embora no soubesse o motivo, sentiu que era importante conquistar-lhe a confiana, faz-la acreditar.
	Para sua informao, nunca estive em Las Vegas. No jogo, no minto e no roubo, exceto por vias legais. Sou um investidor em petrleo.
Erin riu.
	Ah, eu j esperava por isso.
Travor ficou surpreso.
	O que est querendo dizer?
	Um texano tpico. No  verdade que todo mundo no Texas possui um poo de petrleo?
Estou sendo to mesquinha, Erin pensou. Por que estou agindo assim?
Os ombros de Travor vergaram. Erin poderia jurar que ele estava procurando desesperadamente algo para dizer. Ora, por que estava agindo de maneira to cruel com ele?
	Est bem  concedeu.  Est no negcio de petrleo. Mas, ento, por que a personificao de Elvis? Aonde pretende chegar? Voc  muito bom... tanto, que chamou a ateno de Lou.
	No planejei nada disso.
	Poderia ter me enganado.
	E enganei  ele falou com um sorriso.
	Verdade?
	Claro. Voc pensa que sou um imitador de Elvis, quan do no sou.
	Nesse caso, acho que enganou Lou, tambm. E tenho o pressentimento de que ela no vai gostar nem um pouco disso.
	Acha que eu deveria estar apavorado?
	Eu no gostaria de estar na sua pele.
Travor riu.
	O que ela pode fazer? Obrigar-me a usar macaces apertados enquanto estiver em Memphis?
Em vez de responder, Erin sorriu.
	Sujeitar-se a sanduches de banana com bacon?
	Nada mau.
	Manter-me prisioneiro naquele quarto rosa e preto?
	Travor fingiu estremecer com ar dramtico.
Erin fitou-o, tentando manter o tom srio.
	Provavelmente, ela vai marcar uma entrevista para voc no Larry King Live.
	Srio?  Desta vez, o estremecimento no foi fingido. Era o que eu temia. Olhe, posso at me parecer com Elvis, mas no vou alm disso.
	Est pensando melhor no assunto?
	Acredite, nunca pensei nada disso. Sua me me deixa aflito. De todos os fanticos por Elvis que encontrei nas ltimas vinte e quatro horas, tenho a impresso de que ela  a mais perigosa. Os sentimentos dela vo muito alm de adorao. Ela parece... viver Elvis.
Erin pensou no plano de Lou para imortalizar Elvis Presley.
	Tem razo. O nico objetivo de minha me na vida,  manter viva a memria de Elvis. Ser capaz de tudo para atingi-lo. Sr. Steele, provavelmente no vai sair vivo desta casa  declarou com um sorriso.
Travor tambm sorriu.
	Nesse caso, srta. Weller, insisto que me conceda um ltimo desejo.
Com isso, puxou-a para si e beijou-a.
Erin perdeu-se nos braos fortes e na boca exigente. Jamais beijara algum assim... Jamais desejara algum assim... Estava sozinha h tanto tempo. No amara ningum desde...
Sentiu o fogo correr em suas veias, e ouviu as batidas descompassadas de seu corao. Eram to altas, que Travor devia estar ouvindo, tambm.
Ento, abriu os olhos e se deparou com um homenzinho vestindo uniforme. Empurrou Travor e gritou apavorada. Um f enlouquecido poderia ser muito perigoso.
	Travor...  comeou a falar, mas ele se ps de p e segurou o sujeito pelo colarinho.
- Muito bem, camarada, o que deseja? Como entrou aqui?
O homenzinho estranho gaguejou e engasgou-se, sem conseguir falar. Estendeu a mo, exibindo uma miniatura de Elvis feita de plstico. Erin reconheceu o chaveiro da me, bem como a chave da porta da frente.
	Ah, no! O que ela fez?  Erin murmurou.  Pode solt-lo, Travor. Lou o mandou.
Depois de recuperar o flego, o homem se dirigiu a Erin.
	Eu bati na porta. Juro que bati.
Ento, no eram as batidas do meu corao, ela pensou. Sentiu o calor subindo s faces, mas no se atreveu a olhar para Travor.
	Por que est aqui?  perguntou.
	Fui contratado para trazer uma limusine para...  encarou Travor e engoliu seco  o Rei.

CAPITULO V

Compreendo o desejo de sua me em __ 'manter a memria de Elvis viva, Erin, mas ela no podia simplesmente usar uma camiseta com a fotografia dele?
Erin soltou uma risadinha nervosa, enquanto os dois corriam em meio  multido reunida em seu jardim. Travor era um homem alto, mas chegava a parecer pequeno perto dos quatro seguranas que Lou mandara.
Mal entraram na limusine, e o carro imenso saiu rangendo os pneus no asfalto. Erin virou-se a tempo de ver alguns fs correrem para seus carros, e outros sentando-se no gramado para esperar. Ah, seria um longo dia!
	Vocs so da Phillips Segurana?  Erin perguntou.
	Sim, e ficaremos a seu servio, enquanto precisarem.
	Espero que no seja por muito tempoErin resmungou.
Sabia exatamente quanto Lou j gastara com a limusine e os seguranas. Era uma pequena fortuna... que eles no tinham. Por que a me estava fazendo aquilo?
	Importa-se de me dizer que diabos est acontecendo, afinal?  Travor inquiriu nervoso.
	Estes homens devem proteg-lo de qualquer ameaa.
	Estou comeando a ter arrepios  ele murmurou mal-humorado.  Veja como eles olham para mim.
	Trate de se acostumar.
	Que ameaas so essas?
	Nos bons tempos, havia um f-clube que promovia folias no porto de Elvis. Ficaram famosos por levarem coisas um pouco alm dos fs normais. __ Eram violentos?
	Lou jura que no.
	Ento, por que a necessidade de seguranas?
	j se esqueceu do que aconteceu no restaurante?
	Para onde vamos?  Travor perguntou com ar sombrio.
	Pelo caminho que estamos fazendo, aposto que vamos para o estdio. Pode relaxar.
	Voc s pode estar brincando!  Travor cruzou os braos e olhou pela janela. Aquelas duas pareciam decididas a transform-lo em Elvis Presley Segundo. De jeito nenhum!
 Desculpe tocar no assunto, mas... ningum me perguntou se eu quero participar desse projeto.
O estdio no era o que Travor esperava. Embora a decorao fosse rosa e preta, o bom gosto imperava. E havia mais que simples lembranas de Elvis. Uma parede apresentava-se coberta de certificados e prmios. Outra, por fotografias de Cari Perkins, Jerry Lee Lewis e pessoas que Travor nunca vira.
	Finalmente, chegaram!  Lou exclamou ao v-los, e foi logo se aproximando.  Conseguimos suas roupas, Travor. E preciso pagar uma taxa para retirar a motocicleta. Infelizmente, eu no tinha o dinheiro.
Travor apanhou a mochila que Max segurava.
	Tudo bem, sra. Weller. Posso...
	Lou, por favor.
Ela o pegou pelo brao e levou-o na direo de duas mulheres. Travor deixou-se levar contra vontade, notando que Erin desaparecera numa sala, sem falar com ningum.
	Muito bem, Lou. Fico contente por saber que minha moto est a salvo. Quando sairmos daqui, pode me deixar onde...
	J conheceu os garotos? So grandes, no? Deixe-me apresent-lo aos outros.
Erin saiu da sala usando uma saia jeans. Costumava ter roupas no estdio, pois nunca sabia quando precisaria trocar-se para uma ocasio inesperada. Apanhou uma pilha de correspondncia e ps-se a examin-las, enquanto prestava ateno  conversa de Lou. Contas, contas e mais contas. Como Lou conseguira a limusine e os seguranas? A situao no poderia ser pior. Tudo comeara dois anos antes, quando Lou perdera todo o dinheiro que tinham na produo de um seriado sobre um fantico por Elvis. Desde ento, suas finanas s haviam piorado. Agora, precisavam de um milagre que as salvasse da falncia, e Erin no acreditava que Travor Steele fosse o seu anjo salvador.
Ouviu a me apresent-lo a todos e viu a excitao no rosto do filho. Gostava de ver av e neto trocando ideias, um tentando superar o outro nos planos para ganhar dinheiro. Lamentou que, desta vez, por melhores que fossem as ideias, ela fosse obrigada a vet-las. No tinham dinheiro e no poderiam arriscar um centavo sequer em Travor Steele, ou Elvis Presley. O fim do Star Music Studio era um medo real, e poderia acontecer em breve.
Apesar de todos os clientes que possuam e dos sucessos que alcanavam, haviam feito muitos investimentos errados. Como poderia um ssia de Elvis fazer diferena agora? No poderia. Era tarde demais.
Erin observou Travor conversar com os funcionrios do estdio. Como se sentisse que era observado, ele virou e fitou-a. Ento, disse que gostaria de trocar de roupa e vestir algo mais respeitvel. Todos riram e Max levou-o pelo corredor.
	No acha que ele ficaria timo num vdeo musical?  Lou perguntou a Erin.
	No temos dinheiro, Lou, nem mesmo para a limusine ou os seguranas. Por que fez isso?
	Fiz pela publicidade. Quanto mais ateno ele tiver, melhor para ns. No podemos perder esta chance. Vdeos so a febre do momento. Por que no fazemos o que Hank Williams Jr. fez? Lembra-se do vdeo em que ele parece estar cantando com o pai? Poderamos ter Travor cantando com Elvis. Dois Elvis!
	Por favor, chega!  Erin interrompeu-a.  Lou, no entendemos nada de vdeos. Isso significa ter de contratar diretores, coregrafos, fotgrafos... Alm disso, voc ainda no conquistou a sua estrela. Lou riu.
	Mas vou conquistar. E, desta vez, vou at o fim. Quero fazer um verdadeiro tributo a Elvis, para que jamais seja esquecido.
	Ora, Lou, voc sabe que ele jamais ser esquecido. Elvis  uma lenda.
	Sim. Sempre que algum canta uma de suas msicas, ou faz uma piada sobre ele, Elvis  lembrado. Mas isso no  o bastante. Detesto essas piadas. O homem merece respeito... de todos.
Percebendo que a conversa no estava surtindo efeito, Erin tentou outra ttica.
	Tudo o que tem  um rapaz do interior, de Rattan, Texas. Ele  maravilhoso, mas para fazer sucesso, teramos de produzir algo grande, totalmente novo. Isso custaria uma fortuna. No temos uma fortuna. No temos nada, exceto um belo ssia de Elvis que ficaria timo em vdeo.
Lou surpreendeu-a com um suspiro desanimado.
	Vou precisar de sua ajuda, Erin, pois no tenho a menor ideia do que fazer.
Erin teve vontade de rir e, ento, de chorar. Era aquele lado vulnervel de Lou que sempre amolecia seu corao.
	Ah, Lou, isso tudo parece loucura.
	Voc pode no acreditar, mas farejei o sucesso assim que pus os olhos nele. Os outros no eram completos, mas esse rapaz de Rattan  simplesmente perfeito.
	Quem  perfeito?  a voz profunda veio do corredor.
As duas viraram e depararam com Travor em jeans e camisa vermelha. Rapidamente, Lou pegou-o pelo brao e o levou para os fundos do estdio.
	Venha, Travor. Vou lhe contar tudo.
Erin observou-os afastarem-se, ao mesmo tempo em que uma imagem se formava em sua mente. Sobre um fundo branco, surgia a imagem difusa, enquanto uma cano de Elvis tocava. A figura sexy s se tornaria ntida no final da msica, uma revelao surpreendente de Elvis nos anos noventa. A ideia era boa. S teriam de escolher a cano com cuidado. E convencer Travor.
Uma voz zangada trouxe Erin de volta  realidade.
	Ento,  por isso que no podia se reunir comigo?
Est cuidando de um novo talento, no ? J disse a ele que vai deix-lo na mo, assim que aparecer outro?
Erin olhou para Travor e Lou, e sacudiu a cabea em advertncia. Era s o que lhe faltava: uma crise de Kimbie Love. Erin no queria que Lou voltasse a engalfinhar-se com a cliente temperamental, nem que Travor partisse em defesa de algum, como costumava fazer em situaes de tenso.
	Kimbie...
	No me venha com histrias, srta. Weller. Ouvi muitos rumores, para que no tenham um fundo de verdade. Est jogando alto, desta vez, no ? Foi por isso que no fez nada por mim.
	Ns no...  Erin comeou, mas a ruiva voltou a interromp-la.
	Isso mesmo. Vocs no fizeram nada. Agora  tarde. No vou perder nem mais um minuto com este estudiozinho falido. Pensei que, por serem pequenos, me dariam mais ateno. Pois no recebi ateno alguma.
	Kimbie...
	 exatamente o que penso de voc, de sua me e do Star Music Studio.
Com ar ameaador, ergueu uma cpia de seu contrato no ar.
Erin agarrou-lhe o brao.
	Trate de se acalmar, Kimbie. Est prestes a estragar uma negociao muito importante.
Fez um sinal na direo de Travor. A ruiva olhou para ele.
	Quer dizer que ele est aqui para...
	Nem mais uma palavra, Kimbie. As coisas esto num ponto decisivo. Ainda no sabemos se poderemos arcar com tudo isso, mas, se der certo, ser um negcio grande... para todos ns.
Kimbie Love examinou Travor.
	 mesmo um gato, mas tenho a impresso de j t-lo visto em algum lugar.
Erin reprimiu um sorriso.
	Acaba de chegar da costa oeste e, nas atuais circunstncias, acho melhor no apresent-la imediatamente.
Kimbie corou e desculpou-se.
	Ah, meu Deus, espero no ter estragado nada. Eu e minha boca grande! Desculpe, Erin. Voc sabe como fico ansiosa e... s vezes, no consigo raciocinar com calma.
Erin virou-a na direo da porta.
	Eu sei. E voc precisa cuidar disso. Pacincia  a alma do nosso negcio.
	Ah, espero no ter criado nenhum problema.
	Tambm espero, Kimbie, mas tente aprender a lio. O seu temperamento pode custar caro  sua carreira.  Erin voltou a apontar para Lou e Travor.  Prometo que voc ter o sucesso que merece. Cuidaremos disso.
Quando Kimbie saiu, Erin fechou os olhos, perguntando-se o que fazer para promover a ruiva. Kimbie tinha uma voz sensual, capaz de provocar arrepios, mas havia algo errado em sua apresentao, bem como em sua personalidade.
	Tal me, tal filha  Lou zombou, aproximando-se de Erin.
	Obrigada, Lou, mas elogios no pagam o aluguel. Voc deveria estar trabalhando na promoo dela, em vez de ficar brincando com Elvis.
	Ela  sua descoberta, no minha.
	Eu sei. Voc no me deixa esquecer isso. Bem, scia, se no resolvermos o problema da srta. Love, teremos de pedir emprego no Sun Studio.
Lou sorriu.
	Temos uma mina de ouro nas mos  declarou.
As duas viraram-se para Travor, que esperava encostado na parede.
	Travor?  Erin perguntou.
Ele deu de ombros.
	No olhe para mim, doura. No fao a menor ideia do que ela tem em mente.
Voltaram para a casa dos Weller em silncio quase solene. Erin olhava pela janela, pensativa. Travor perguntou-se se ela estaria revivendo a cena com Kimbie Love. No havia se dado conta de que ela podia ser to matreira quanto a me. Era possvel que nem ela mesma soubesse. Mesmo assim, conseguira controlar a situao e ganhar tempo para o estdio. E, pelo que ele pudera perceber, era exatamente do que precisavam: mais tempo e, certamente, mais dinheiro. Travor refletiu sobre o que vira e ouvira. Os Weller estavam falidos. Precisavam dele. Porm, por mais que gostasse de Erin e Max, e at mesmo de Lou, no tinha certeza se queria se envolver. Talvez, pudesse fazer um emprstimo e ir embora.
Depois do jantar, os quatro sentaram-se na sala para "tratar de negcios", segundo Lou. Travor tomou a iniciativa.
	Diga-me exatamente o que quer que eu faa.
Lou respirou fundo.
	Quero fazer uma srie de vdeos que possa competir com o que temos de melhor no ramo.
	Boa ideia, vov!  Max elogiou e correu para a cozinha.
Lou sorriu ao ouvir a porta dos fundos bater.
	Ele est certo. A ideia  boa. No precisa entrar em pnico, Travor. No h nada pior que um mau imitador de Elvis, mas voc tem o charme necessrio.
	Mas no tem experincia  Erin interferiu.
	Verdade, mas ele tem a inocncia resultante da falta de experincia. E  nisso que pretendo investir.
Erin sacudiu a cabea.
	Um seriado, Lou? Voc disse que no sabia o que fazer.
	E no sei. Estou apenas deixando as ideias virem  tona.
	Est me dizendo que pretende colocar em prtica o seu plano mirabolante, sem saber o que fazer?  Travor levantou-se.  Est querendo repetir a histria de Kimbie Love comigo?
Erin e Lou entreolharam-se.
	Sim, eu ouvi o que ela disse. Vocs vo me deixar na mo.
	Ainda no  Lou corrigiu-o.
	Mas, vo  Travor insistiu.
Lou empertigou-se na beirada da cadeira.
	Vdeos sempre do certo.
	Certo, mas vamos voltar  histria de o que fazer. Pelo que entendi, Kimbie Love no est nada satisfeita.
	Eu no queria dar um contrato a ela. Foi ideia de Erin.
	E ela  uma cantora excepcional  Erin defendeu-se.  Infelizmente, s vezes, torna-se extremamente agressiva.
	Verdade  Lou concordou.  Ela adora ter crises temperamentais nos piores momentos, como cinco minutos antes de uma apresentao beneficente, no Baptist Memorial Hospital.
Erin suspirou e virou-se para Travor.
	Eu estava ouvindo algumas fitas de testes, quando deparei com a dela. Kimbie tem uma voz incomum, mas est deixando que sua personalidade acabe com sua carreira.
	Vocs duas no so scias?  Travor inquiriu.
	Claro que somos. Discutimos tudo  Lou respondeu.
	Mas nem sempre concordamos  Erin explicou.
	Talvez seja por isso que o Star Music Studio esteja afundando: porque vocs duas no esto trabalhando juntas.
	No  verdade  Lou protestou.  S temos maneiras diferentes de trabalhar. Erin costuma ter tudo planejado na cabea, ou no papel, antes de fazer um negcio. Eu costumo fazer o negcio, para depois planejar os detalhes na minha cabea. Sou eu quem assume os riscos.
Travor olhou para Erin, esperando pela confirmao. Ela deu de ombros e dirigiu-se a Lou.
	No estou habituada a trabalhar desse jeito.
	Vai dar certo  Lou garantiu.  J deu antes.
Erin ps-se de p.
	No desta vez, pois no podemos assumir risco algum. Precisamos de certeza, de movimentos planejados, ou perderemos tudo, Lou.
	Isso no vai acontecer. Podemos...
	Como pode ter certeza de que Elvis se daria bem no mundo de hoje?  Travor interrompeu-a.  Pelo que ouo no rdio, a msica mudou muito.
	Elvis ainda  o Rei, o melhor. As pessoas ainda compram seus discos.
	A ideia de fazer papel de tolo no me agrada.
	Deixe isso conosco. Voc pode fazer isso. Eu o vi atuando. Todos viram. Voc imitou com perfeio as expresses de Elvis, sua voz  quase idntica  dele. Voc  sexy. No  verdade, Erin?
Travor corou, assim como Erin. Lou apontou para a prateleira.
	Tenho tudo o que vai precisar: documentrios, todos os filmes dele, cada livro escrito a seu respeito. Poder estud-los antes de comearmos. Erin o ajudar. Quando estiver pronto, nem vai saber se  Travor Steele, ou Elvis Presley.
	Lou, no posso!
Erin estava  beira do desespero. Como poderia treinar Travor para imitar Elvis, se mal podia olhar para ele, sem ser atacada por calafrios, tremores e suores? Felizmente, ele tinha bom senso, e no entraria no jogo.
	Quanto tempo acha que Erin precisaria para me treinar?  ele perguntou a Lou.
Ah, meu Deus, no!
	Querido  Lou comeou , se foi capaz de imit-lo sem treino, j tem meio caminho andado.
Travor sentou-se no sof.
	Lou, juro que no vim at aqui para ser descoberto, e tenho muitas reservas com relao  situao. Mas tenho de admitir que alguma coisa nesse projeto me agrada.
Erin engoliu seco. Os dois olhavam fixamente para ela. Ningum dizia nada.
Travor continuou:
	Por outro lado, a simples ideia de estar diante das cmeras me faz sentir um tolo.
Lou abanou a mo, desprezando tal preocupao. Ia comear a falar, quando Max entrou na sala.
	Tem um homem l fora, perguntando quando vocs vo ligar os telefones na tomada.
Lou pulou do sof.
	Eu estava estranhando o fato de os telefones no tocarem. Muito esperta, Erin. Ganhamos tempo. Max, diga que ligaremos dentro de uma hora. Tempo e dinheiro so coisas muito preciosas. Travor Steele, quero que voc...
	Espere um instante. Preciso estar de volta ao Texas
dentro de um ou dois dias.
	Perfeito. No teremos problemas com isso. Leve Erin com voc e ela lhe ensinar tudo o que precisa saber.
Erin levantou-se de um pulo.
	De jeito nenhum! Tenho muitos compromissos. Preciso matricular Max no curso de matemtica, terminar os jingles da padaria de Jan, e estou negociando a promoo do supermercado com Bud...
	Eu cuidarei de Max e voc poder terminar os jingles no Texas. Que tal, Max? Acha que podemos passar alguns dias sem ela?
	Claro, vov.
	E quanto a Kimbie Love?  Erin desafiou.
Max e Lou entreolharam-se e fizeram uma careta.
	No faa isso, mame. Sei o que est passando por sua cabea. No vai dar certo.
Lou sorriu, passou um brao em torno dos ombros do neto e sussurrou algo em seu ouvido. Max riu. Ento, os dois ergueram os braos e fingiram tocar bateria, marchando pela sala, e cantando: "Os olhos do Texas esto sobre voc, todo o...", e desapareceram na cozinha.

CAPITULO VI

	No gosto quando banca o cupido, Lou. Posso cuidar dos meus relacionamentos sozinha.	.
	Que relacionamentos? Voc nunca teve um relacionamento. Viveu uma fase de rebeldia e teve uma experincia ruim.  
As duas estavam dando continuidade  discusso da noite anterior.
	No quero mais falar sobre isso. Tem certeza de que pegou a fita de "Viva Las Vegas"? Estava separada das outras. E quero levar a fita demonstrao de Kimbie Love.
Lou pousou a mo no ombro da filha.
	Acalme-se, Erin. Est tudo na mala. Vai dar tudo certo.
	No estou preocupada com o treinamento. Estou preocupada com...  parou de falar.
Como poderia explicar a Lou que temia ficar sozinha com Travor, pois cada vez que ele a fitava, ela sentia o sangue ferver nas veias? E, cada vez que ele sorria, seu corao disparava.
	Gosta dele, no ?
	No... no como est pensando.
	Gosta, sim. S no quer admitir. Est na hora de tirar Kyle Duncan da cabea, Erin. Tem de encarar o fato de que nunca o amou de verdade.
	Eu amava Kyle, assim como ele me amava.
	Foi paixo de adolescente.
	Vov, veja!
Erin e Lou ficaram boquiabertas quando Max entrou, seguido de Travor. As costeletas haviam desaparecido e, bem diante dos olhos das duas, estava um rapaz que poderia ter sido o protagonista de Love Me Tender.
	Eu falei para ele no tirar  Max explicou.
Erin teve um acesso de riso.
	Estou engraado?  Travor perguntou.  Achei que, assim, seria mais fcil sairmos da cidade. No quero aqueles gorilas  minha volta.
Lou empalideceu.
	Voc quase estragou tudo!  falou.  Em vez de sexy e ousado, teremos de investir no jovem ingnuo.
	 incrvel, Lou  Erin comentou.  Travor poderia passar por Elvis em qualquer fase da vida.
	Do que esto falando?  Travor inquiriu confuso.

	Que voc se parece com Elvis de qualquer jeito Lou respondeu.  Quantos anos disse que tem?
	Vou fazer trinta e um. Por qu?
	Precisa assistir a alguns filmes de Elvis. Tudo o que conseguiu foi se parecer com ele quando era muito jovem. Quanto a sair da cidade, a dificuldade ser a mesma. Esta aparncia no  exatamente o que eu queria, mas as costeletas crescem rpido. Vamos tomar o caf, para que vocs possam partir logo. Erin, por favor, no deixe que ele pinte os cabelos de loiro. Sempre detestei aquela verso de Elvis, em Kissing Cousins.
Duas horas depois, Erin dirigia seu carro pela Interestadual Cinquenta e Cinco. Concluiu que estava louca, por concordar em viajar com um homem que lhe provocava as reaes mais incontrolveis. Como poderia resistir a ele?
	No que est pensando?
	Que, se tivesse uma me normal, nada disso estaria acontecendo.
Travor riu.
	Tem razo, mas deve pensar na vida excitante que tem tido.
	Muito excitante. Nunca sei o que vai acontecer a seguir.
	Pelo menos, no tem de sofrer o tdio da rotina.
	Quer trocar?
Ele soltou uma gargalhada.
Eu no deveria estar saindo de MemphisErin comentou.
	Por qu?
	No me agrada deixar Lou sozinha. Viu a rapidez com que ela contratou os seguranas e a limusine? Acha que vai ficar quietinha, enquanto estivermos no Texas?
	O que acha que ela pode fazer?
	Qualquer coisa que lhe d na cabea. J devia ter percebido.
Erin pedira a Max que a informasse, caso Lou comeasse a armar algum plano com a imprensa. E advertira a me para ficar longe dos bancos e agiotas, e para no vender a casa enquanto ela no retornasse. Mas, quem poderia saber o que Lou faria?
	No quero pensar nisso agora  Travor declarou.  J esteve em Nova Orleans?
	Estive no Superdome vrias vezes, em shows, mas nunca fui ao French Quarter.
	Com a vida que teve, nunca visitou o French Quarter?
	Nunca visitei lugar nenhum como simples turista.
	Ento, passaremos a noite l. Por um dia inteiro, ser uma turista.
	No sei se  uma boa ideia...  Erin hesitou, atacada novamente pelos suores j familiares.
	Meu plano original era passar por l.
	E quanto aos seus negcios?
	Um dia ou dois no faro diferena.
Erin fitou-o desconfiada.
	Tive a impresso de que estava ansioso para voltar para casa.
	E estou, mas ainda me resta algum tempo e podemos passear um pouco. O que acha?
Em vez de responder, Erin entregou-se s fantasias que comearam a se formar em sua mente. Imaginou um quarto de hotel, uma cama imensa, um homem e uma mulher nos braos um do outro. Ento, lembrou-se da garota de dezessete anos na maternidade do hospital St. Joseph, em Albuquerque, no Novo Mxico. Foi tomada por um sentimento de apreenso.
Travor notou que Erin diminura-a velocidade assim que ele mencionara passar a noite em Nova Orleans. Seria por no querer perder tempo, ou por causa dele? Olhou a cala jeans que ela vestia, e lembrou-se dos shorts que usara na vspera. Sua memria havia registrado cada detalhe das pernas bem torneadas, cada curva do corpo mido e rolio. Voltou a olhar para a estrada. No podia repetir o mesmo erro que cometera com Celeste. Aquilo fora uma catstrofe. S queria diverso, sem compromissos. Por outro lado, no fora uma deciso sensata lev-la para casa.
Tivera certeza de que Lou cancelaria tudo, ao saber que ele tinha de voltar para o Texas. Porm, quando ela sugerira que Erin o acompanhasse, no fora capaz de recusar. Ficariam juntos, a ss. Ainda assim, a ideia de representar Elvis Presley ainda era perturbadora. Mas no era hora de
pensar nisso.
	As coisas poderiam ser piores  falou.
	Como?
	Eu poderia estar nesta pickup com um daqueles gorilas uniformizados. Erin sorriu.
	Obrigada... eu acho.
	De nada.
Enquanto Erin dirigia, Travor observava e comentava tudo o que via: casas abandonadas, construes, plantaes, pastos. A certa altura, ela se recusou a parar para um caronista.
	A placa que ele segurava dizia que vai at a prxima cidade. Por que no podamos lev-lo?
	Dei uma carona a voc e veja s o que aconteceu.
Mais tarde, Erin recusou-se a parar por uma cadela com trs filhotes.
	Voc , definitivamente, uma mulher sem corao, Erin.
	No vou colocar quatro cachorros dentro da minha pickup. Imagine o cheiro!
No incio da tarde, tomaram a estrada que os levari a Nova Orleans. Travor dirigia, enquanto Erin consultav, o mapa.
	Chegaremos dentro de meia hora  ele falou. que gostaria de fazer primeiro? Passear ou encontrar um?
lugar para passar a noite? 
	Passear  ela respondeu depressa.
Ao ver o sorriso de Travor, Erin perguntou-se se ele percebera que a simples ideia de entrar com ele num hotel a deixava em pnico. Logo chegaram a Nova Orleans.
O trnsito era intenso e Travor dirigia com cuidado.
	Vamos deixar o carro num estacionamento e andar a p. Depois de permanecerem alguns minutos parados na calada, Travor segurou a mo de Erin.
	Vamos seguir aquele grupo. Esto usando camisetas de Nova York e devem ser turistas. Se tivermos sorte, nos levaro ao French Quarter.
Logo chegaram a uma parte mais movimentada da cidade, e Erin tentou ficar perto de Travor. Tinha medo de multides, pois sempre se lembrava da histeria dos shows. Travor passou um brao em torno de seus ombros, fazendo-a sentir-se mais segura.
	Esta deve ser a Jackson Square  Travor falou entusiasmado.  Vamos passear por aqui. Temos tempo de sobra, antes de encontrarmos um lugar para ficar.
A praa estava cheia de artistas, msicos e turistas, numa louca mistura. Aqueles que exibiam seus talentos tinham um chapu, ou uma latinha, cheia de dinheiro  sua frente.
A arquitetura era um misto de Espanha e Frana. Nas sacadas, casais bebiam refrigerantes, observando o movimento dos turistas.
	Vamos beber alguma coisa  Erin falou e apontou para um caf.
	Caf du Monde. Um lugar muito famoso  Travor falou com uma risada.
Atravessaram a rua e foram sentar-se a uma das mesas redondas, debaixo de potentes ventiladores de teto. Uma garonete veio anotar os pedidos.
	Brioches e caf  Travor pediu.
	Uma coca-cola bem gelada  Erin falou, abanando-se.
Observando a multido ecltica que passava na rua, Travor ps-se a imitar um personagem de desenhos animados, fazendo comentrios engraados.
	Ora, voc  mesmo um imitador  Erin concluiu desconfiada.  Foi por isso que imitou Elvis com tanta facilidade.
	No me olhe desse jeito. No sou um profissional, nem estou tentando ser descoberto. Trata-se de algo que sempre fui capaz de fazer.
Erin no se convenceu.
	Ningum nasce imitando.  preciso muito treino.  Mas, ento, lembrou-se de que ele no sabia quase nada a respeito de Elvis Presley.  Muito bem, conte-me sua histria.
	Contarei, um dia.
	Voc disse que canta...
	No. Eu s disse que tinha uma fita, e voc foi logo concluindo que eu cantava.
	Mas, ento, o que h na fita?
	Tenho um amigo paraltico, que no pode viajar. Preparei a fita para ele, contando histrias dos lugares por onde fui passando, imitando vozes de celebridades.
Erin sentiu-se tola. Pensara que ele queria ser descoberto por causa de sua semelhana com Elvis, quando Travor estava apenas ajudando um amigo deficiente.
	Deve me achar uma idiota.
Travor segurou-lhe o queixo.
	Nada disso. Eu poderia ter explicado, mas voc estava to envolvida em suas suspeitas, que decidi ver at aonde poderia chegar.
Erin afastou-se, fugindo ao calor daqueles dedos.
	Fui longe demais.
	Mas foi divertido.
Erin virou-se para a rua, onde um jovem tirava fotografias deles. Sentiu um arrepio, mas ignorou-o. Estava contente por Travor no estar em busca do estrelato, por ele no ser famoso.
Caminharam pelas ruas de Vieux Carr, tirando muitas fotografias. Turistas os interpelavam, pedindo para serem fotografados junto ao ssia de Elvis. Erin notou a facilidade e o prazer com que Travor os atendia. Ele possua talento natural.
	Sabia que Elvis esteve em Nova Orleans? Ele filmou King Creole aqui.
	No vi o filme  Travor replicou.
	J viu algum filme de Elvis?
	Acho que vi um, em que ele est no exrcito.
	King Creole foi um dos melhores, baseado num livro de Harold Robbins. O papel de Elvis deveria ter sido de James Dean.
	Mas James Dean me parece uma personalidade totalmente diferente  Travor falou impressionado.
	Sim e no. Elvis nunca teve uma chance de verdade com seus filmes. Dizem que o convidaram para fazer "Nasce Uma Estrela". Embora no consiga imagin-lo contracenando com Barbra Streisand, tenho certeza de que a vida dele teria sido diferente.
	J se deu conta de que, s vezes, voc  igualzinha a Lou?  Travor perguntou, fitando-a de perto.
	Acho que sou parecida com ela em algumas coisas  Erin replicou defensiva.
Passearam de charrete, compraram souvenirs para Max e Lou e assistiram a diversas apresentaes de rua. Travor mostrou-se entusiasmado e distribuiu notas de vinte dlares para cada artista.
Passou o brao em torno dos ombros de Erin.
	Bem, acho que est na hora de procurarmos por um lugar para ficar.
Ela sentiu a pele arrepiar-se ao contato. No era capaz de controlar suas reaes. E por que deveria? Pelo passado, claro. Sou uma mulher adulta, no uma adolescente rebelde. No fao mais nada para desafiar minha me. E sei que precaues tomar. Apesar do calor, sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
Enquanto Travor preenchia o registro no hotel, Erin foi at o jardim interno. Ele fizera questo de escolher um lugar pequeno, com o charme peculiar de Nova Orleans. E conseguira. Do jardim circular, Erin observou as sacadas dos quartos e imaginou-se numa delas, ao luar, nos braos de Travor.
Concluiu que o desejava, no s fisicamente, mas tambm emocionalmente.
Pouco antes, andara junto dele pelas ruas apinhadas. Quando ele segurara sua mo, sentira-se unida  sua outra metade. Um sentimento estranho para algum que jamais tivera uma outra metade, pensou.
Ento, viu Travor caminhando na sua direo, e sentiu o peito agitar-se de antecipao. Nunca desejara um homem com tamanha intensidade. Tinha certeza de que ele podia ler a mensagem em seus olhos, mas no se importou. Tudo o que queria era perder-se nos braos dele.
Sorriu, e teve seu sorriso retribudo.
Travor estendeu o brao. Uma chave pendia de seus dedos.
Erin sentiu o corao disparar.
	Seu quarto fica bem em frente ao meu.
Ela hesitou, sem acreditar no que acabara de ouvir. Ei, voc est bem?  ele perguntou, tomando-a nos braos. Erin afastou-se.
	Eu... Sim, deve ser o calor  balbuciou e apanhou a chave.  Qual  o andar?
	Segundo.
Erin apertou o boto do elevador, detestando-se pela ingenuidade e imaginao ativa demais.
	Foi uma tarde maravilhosa  falou, decidindo que Travor no era o culpado de sua tolice.  Seria melhor levantarmos bem cedo para seguir viagem.
	Como ainda  cedo, pensei que pudssemos tomar um banho e, depois, sair para jantar. Gostaria de visitar alguns clubes. Nenhum turista que se preze passa por Nova Orleans, sem visitar o bar de Pat 0'Brien.
	Estou muito cansada, Travor. Por que no vai sem mim?
	Ora, no seria o mesmo sem voc  ele falou, desapontado.
Embora no aguentasse mais os abraos e sorrisos sedutores, Erin sentiu-se culpada.
	Ligue para o meu quarto dentro de uma hora.
Dizer no pelo telefone seria bem mais fcil.
Travor andava de um lado para o outro em seu quarto, lanando olhares de reprovao para o telefone. Dera a Erin a hora que ela pedira. Ligara e ela recusara seu convite. O que havia acontecido, afinal? Tinha certeza de que ela se divertira no passeio. Teria dito algo errado? Estaria Erin desejando voltar para Memphis?
Repassou a sequncia de acontecimentos pela memria. Erin mudara de atitude quando chegaram ao hotel. Mas, por qu? Travor teria sido capaz de jurar que ela comeava a gostar dele. E fizera um grande sacrifcio, controlando-se para no tom-la nos braos e estragar tudo. Quase arrependeu-se por no ter seguido os instintos. Por outro lado, sabia que, se houvesse optado pela escolha de um quarto para dois, ela teria se ofendido.
Erin ainda sentia o desejo frustrado, que lhe trouxera lgrimas aos olhos. Irritada, deitou-se olhando para o teto. Como pudera ter chegado to perto de cometer o mesmo erro do passado?
No, Kyle no fora um erro. Afinal, ela tivera Max, o que havia de mais importante em sua vida. E Kyle ainda estaria vivo, se no houvesse decidido voltar correndo para casar-se com ela, ao saber que Erin estava grvida.
Lembrou-se do modo como quase se atirara nos braos de Travor, h pouco mais de uma hora, e sentiu as faces arderem.
Abraou o travesseiro e perguntou-se se Travor estaria fazendo o mesmo. Adormeceu pensando nele.

CAPITULO VII

Travor dirigia na noite escura. Em menos de uma hora, estaria em casa. Era bom estar em solo familiar, dirigindo por estradas conhecidas. At ento, no se dera conta do quanto sentia saudade de casa. Durante tanto tempo sentira-se preso ali, o que lhe provocava sentimentos de remorso, pois sua me no tivera culpa pela doena que a atacara. Ela no tinha mais ningum. Travor era filho nico, o nico parente vivo. No tivera escolha, seno ficar em casa e cuidar dela. E no fora fcil v-la aproximar-se da morte lenta e dolorosa. Travor apertou o volante com fora e olhou pelo retrovisor.
Erin dormia no banco de trs. Haviam se encontrado no jardim do hotel, pela manh, e tomado caf juntos. Ela parecera sem jeito e no pudera disfarar as olheiras. Travor sabia que ele tambm estava com olheiras, pois no conseguira dormir a noite toda, pensando no que poderia ter dito para ofend-la
Pela manh, descobrira que Erin reassumira a postura desconfiada com ele, tomando cuidado com tudo o que dizia. Mesmo assim, Travor insistira para que parassem em Batom Rouge, na tentativa de recuperar o clima que haviam partilhado no French Quarter. Mas fora em vo.
O que havia acontecido, afinal? Desanimado, Travor tentou tirar Erin dos pensamentos.
Era pouco mais de meia-noite, quando Travor estacionou a pickup na garagem. Como Erin continuasse adormecida, ele observou a casa em que fora criado.
Embora houvesse apreciado o tempo que passara viajando, tinha de admitir que era bom estar de volta ao lar. Gostava dos amigos e vizinhos que tinha ali. Conhecia-os desde criana, e os encontrava sempre que ia ao banco, ou s compras. Durante suas viagens, a nica coisa que o desagradara era que ningum o conhecia, ningum se importava com ele.
Abriu a porta devagar, sem querer despertar os cachorros, que latiriam e assustariam Erin. Acordou-a com cuidado, mas ela parecia totalmente atordoada, e semi-adormecida.
Travor tomou-a nos braos e atravessou o jardim, quase tropeando nos dois cachorros que, animados, lhe davam as boas vindas.
 Quietos  ele sussurrou.  Estou feliz em v-los, mas brincaremos amanh.
Entrou na casa e hesitou. Queria levar Erin para seu quarto, coloc-la em sua cama e dormir abraado a ela. Porm, decidiu-se pelo quarto menor, onde a acomodou na cama, tirou-lhe os sapatos e cobriu-a. Ento, ficou parado, observando-a, lamentando no ter escolhido um nico quarto na noite anterior, e perguntando-se se, afinal, traz-la para sua casa fora mesmo uma boa ideia.
Erin abriu os olhos e examinou o quarto estranho. Sentou-se na cama. Sua roupa estava amarrotada. Dormira com ela. Os sons vindos de fora do quarto chamaram-lhe a ateno.
Passarinhos cantavam, uma coruja piava e ces latiam. Devia haver um canil por ali, ela pensou. Levantou-se e foi at a janela. Quando afastou a cortina, viu o gado, as colinas, os pinheiros e a estrada de terra.
Uma sensao desconhecida invadiu-lhe o peito. Tudo parecia to fresco e colorido.
Erin saiu do quarto e foi at a sala silenciosa. Adorou a moblia campestre, bem como a lareira de pedra. Na cozinha, a grande mesa de madeira chamou-lhe a ateno, enquanto os armrios repletos de louas e copos simples davam a impresso de se estar num filme antigo.
Ela nunca pensara em que tipo de casa Travor vivia, mas aquilo estava muito alm de sua imaginao. E muito, muito longe da decorao berrante da casa de Lou.
Para desespero de Lou, o passatempo predileto de Erin era folhear revistas de decorao. Chegava a recortar e co-lecionar as fotos favoritas, para o caso de um dia ter sua prpria casa.
Depois de examinar tudo ao seu redor, concluiu que viveria naquela casa com prazer, sem fazer a menor alterao.
Ao ouvir um grito l fora, Erin aproximou-se da porta. A cena que viu foi deliciosa: Travor balanava-se de p num pneu preso a uma corda, com um bando de cachorros a persegui-lo, latindo sem parar.
Erin tentou conter o riso, mas os ces pressentiram sua presena e correram at a varanda, apoiando as patas no vidro, latindo, uivando e, ela poderia jurar, sorrindo. Emocionada, levou a mo ao peito. Jamais tivera um cachorro.
	Bom dia  Travor cumprimentou-a, descendo do balano.  Quietos, Rachel... Harry! Esqueci de lhe falar sobre eles. Espero que no tenha nada contra ces.
Erin no pde responder, pois a viso de Travor de shorts e camiseta justa, a pele suada e bronzeada, tirou-lhe o flego. Com esforo, fitou-o nos olhos.
	Fiz caf  ele anunciou com um sorriso.  Traga uma xcara para c.
Erin sacudiu a cabea.
	De jeito nenhum. Eles parecem famintos.  Apontou para os cachorros.
Travor riu alto e, de repente, Erin lembrou-se de que nem sequer penteara os cabelos.
	D-me um minuto. Ento, decidiremos onde vou tomar o meu caf.
Travor segurou-a pelo brao e levou-a para a mesa na varanda.
	Fique tranquila. Vo cheir-la, mas no mordem.
Apesar das palavras de Travor, Erin sentiu o caf revirar em seu estmago, e quase subiu no colo dele, quando os ces saram correndo na sua direo. Travor riu e tomou-a nos braos.
	Obrigado, camaradas  falou para os cachorros.  Eu sabia que vocs serviriam para alguma coisa.
Erin fingiu-se zangada, mas seus atos foram mais provocantes do que reprovadores, surpreendendo-a.
	Onde arranjou tantos cachorros?  perguntou.
Travor levou-a at o balano.
	As pessoas os deixam aqui. No temos Sociedade Protetora dos Animais, ou algo parecido, em Rattan.
	Por que fica com eles?
	Minha me comeou a cuidar deles, h muitos anos.Adorava animais. Quando ela morreu, s dei continuidade ao trabalho.
	Nunca tivemos animais. Lou  alrgica a gatos e sempre disse que cachorros do muito trabalho.
	E verdade. Levo-os ao veterinrio regularmente, no deixo de dar as vacinas. E dou muitos deles, pois muita gente vem direto  minha casa, quando decide adotar um cozinho. Mas no  fcil.
	Posso imaginar. Aliment-los, cuidar de todos eles. Deve custar uma fortuna.
	Sim, mas essa  a parte boa. Ruim  ter de me separar deles. Sempre me apego.
Erin riu.
	Se no me contasse, eu nem desconfiaria  ela falou, apontando para os cachorros reunidos  sua volta, olhando para Travor como se fosse um deus.
De repente, Travor subiu no balano junto dela e deu impulso. Os cachorros se animaram e puseram-se a pular e latir alegres.
	Travor, no to alto!  Erin implorou, agarrada  corda, sem tirar os olhos dos ces.
	Deveria dizer: "Mais alto!"  Travor corrigiu-a.  No se lembra de quando era criana e queria tocar o cu?
	O galho vai quebrar. Est rangendo  ela insistiu, tentando segurar-se com mais fora.
Porm, o corpo de Travor colado ao seu tornava a tarefa quase impossvel. Por um momento, Erin considerou a possibilidade de jogar-se no cho. No sabia qual era o perigo maior: Travor Steele, ou todos aqueles cachorros.
	Travor...
	No tenha medo. Esta rvore j estava aqui quando eu era menino. Estamos seguros.
Erin ergueu os olhos. A rvore era imensa, os galhos fortes e resistentes. Por entre as folhas, o cu mostrava-se azul, como se tentasse garantir-lhe que nada de ruim poderia acontecer em Rattan, Texas. Especialmente, no quintal de Travor. E ela acreditou.
Quando o balano parou, Travor saltou para o cho e estendeu os braos para Erin. Ela hesitou, mas pousou as mos nos ombros largos, deixando-o segur-la pela cintura e coloc-la no cho devagar, fazendo o corpo dela deslizar pelo dele. Teria sido de propsito?
Quando ele comeou a inclinar a cabea para ela, Erin deu um passo  frente e ergueu o queixo, entreabrindo os lbios na expectativa de receber o que tanto desejava: o calor daqueles lbios sensuais.
Foi ento que um grito veio de perto da casa.
	Cus! Veja quem decidiu voltar para casa!
Erin afastou-se de Travor num pulo e, enquanto ajeitava as roupas, tentou controlar as emoes. Do contrrio, qualquer um veria o desejo estampado em seu rosto. E, antes que Travor pronunciasse o nome, ela soube que a mulher rolia era Nellie.
Travor abraou Nellie.
	O gato comeu sua lngua?  a mulher censurou-o.  Trate de me apresentar. Imagino que ela seja a dona daquele carro bonito na sua garagem. A placa de Tennessee chamou a minha ateno. Voc recebeu uma ligao de l...
Erin deu um passo  frente.
Ol, sou Erin Weller. Qual  o seu nome?  perguntou, consciente de que Travor a fitava intrigado.
Tratou de olhar fixamente para Nellie, cuja expresso deixava claro que ela no tinha dvida de que fora Erin quem ligara.
	Sou Nellie, do outro lado do pasto. Cuidei da casa e dos cachorros de Travor, enquanto ele viajava, mas acho que voc j sabe disso.
Erin sentiu as faces arderem. Travor observava as duas com ar interrogativo.
	Atendeu um telefonema do Tennessee, Nellie?  ele perguntou.
	Sim. A pessoa no disse que era de l, mas liguei para a telefonista e chequei de onde vinha a ligao.
Nellie e Travor olharam para Erin.
	Deve ter sido Lou  ele falou.   melhor voc ligar para ela.
Nellie franziu o cenho, sem tirar os olhos de Erin.
Erin no disse nada. No queria que Travor soubesse que o estivera investigando, embora no fizesse mais nenhuma diferena. Ele certamente compreenderia seus motivos. Contaria a ele mais tarde, no na presena de Nellie.
	Quanto tempo vai ficar?  Nellie perguntou, mas, antes que Erin pudesse responder, virou-se para Travor.
 Sua me no aprovaria que uma moa ficasse hospedada aqui, sozinha com voc. Lembre-se do que ela costumava dizer: quando se perde a reputao, no se tem mais nada.
Travor riu e abraou a mulher.
	Voc  uma figura, Nellie, mas estamos nos anos noventa. Alm disso, Erin est aqui a trabalho.
Trabalho? Ela havia se esquecido. Erin sentiu uma pontada de dor. Estivera ele pensando em trabalho, ao tom-la nos braos para beij-la?
	Que tipo de trabalho?  Nellie perguntou desconfiada.
	Trabalho sujo  Travor respondeu com um sorriso maroto.
Erin riu.
	Pode brincar  vontade, Travor, mas quando a sra. Lucas descobrir que h uma mulher em sua casa, vai telefonar para o reverendo Perkins, e ele vir at aqui e...
Travor j levava Nellie para dentro da casa. Seguindo-os, Erin no pde deixar de dar razo a ela. Numa cidade do tamanho de Rattan, ela seria sem dvida o assunto mais comentado.
Quando Travor se ofereceu para mostrar-lhe a casa, Erin pensou que deveria concentrar-se no trabalho, mas aceitou a oferta. No estava pronta para transform-lo em Elvis. Queria desfrutar da companhia dele, antes que ele se tornasse outra pessoa.
E adorou cada aposento da casa, querendo o quarto de Travor para si mesma, o menor, para Max. Era difcil afastar as fantasias.
Quando j vira tudo, Erin sentia-se como em Nova Orleans. O sorriso de menino que curvava os lbios de Travor fazia seu corao saltitar. Os olhos dele a hipnotizavam. Queria que ele a abraasse e a acariciasse e muito, muito mais. Decidiu que poderia viver naquela casa pelo resto da vida.
	J  quase meio dia  Travor anunciou.  Quer almoar, ou brincar de Elvis?
Erin afastou os pensamentos, dando-se conta de que ele no partilhava de suas fantasias. Tratou de apanhar os filmes e livros que Lou pusera na mala.
	 melhor comear por sua lio de casa. Trate de captar os detalhes das atitudes dele. Imitadores de Elvis so encontrados s dzias  falou em tom cido e sentiu-se embaraada por isso.
Felizmente, Travor no comentou seu comportamento estranho. Limitou-se a retirar um filme da sacola. Por coincidncia, era King Creole.
	Vamos comear por um documentrio  Erin sugeriu , para que voc possa compreender a vida dele.
	No. Quero ver este. Voc ficou muito entusiasmada ao coment-lo, em Nova Orleans. Quero saber por que.
Erin arrancou o filme das mos de Travor.
	Um documentrio vai prepar-lo melhor... ento, com preender o meu entusiasmo.
Mentira, pensou. King Creole a faria lembrar-se do quanto o desejara em Nova Orleans, e de que agira como uma grande tola.
Ainda agia assim, mas no se lembrava de ter se divertido tanto, antes. Era como se estivesse recomeando sua vida, tendo uma segunda chance. Sentiu um n na garganta. Estaria traindo a memria de Kyle? Caso se apaixonasse por outro homem, isso significaria que ele morrera em vo, a caminho de casar-se com ela e dar seu nome ao filho que ela esperava? Ora, no estava apaixonada, Erin censurou-se, afastando o sentimento de culpa.
Travor ps o filme no vdeo e sentou-se no sof.
Um jovem Elvis apareceu na tela, cantando Thafs Al-right, Mama.
	Ah, no!  Travor resmungou.  Vo querer que eu faa isso?
Erin riu.
Travor praguejou e fez uma careta. Ento, imobilizou-se.
	Meu Deus  murmurou.   Lou.
A imagem da menina loira, imvel, olhando fixamente para seu dolo, sempre comovia Erin.
	Ela no mudou muito, no ? Tinha treze anos, na poca.
	Uma menina  Travor comentou impressionado.
	Est vendo aquela morena ao lado de Lou?  a irm mais velha dela. Levou-a para assistir ao show. Foi a primeira vez que viram Elvis.
	Era mesmo apaixonada por ele  Travor concluiu, mal acreditando no que via.
Lou Weller, em meio a centenas de fs que gritavam e choravam. Mas ela no gritava, e no havia lgrimas em seus olhos. Estava muito quieta, fascinada, e era possvel ver o brilho da verdadeira paixo em seus olhos. Travor sentiu-se  beira das lgrimas.
	Ela ficou muito bem no filme  Erin comentou.
	E quanto  irm? Eu no sabia que ela tinha famlia.
	Abbie morreu num acidente de carro, pouco depois. Lou a idolatrava. Acho que ficou um pouco rebelde, por isso. Passou a fazer viglia na porta da casa de Elvis, tentando de todas as maneiras aproximar-se dele. Mas a sra. Presley, me dele, costumava conversar com as meninas que ficavam l, mandando-as de volta para casa e dizendo que no as apresentaria ao filho, se matassem aula, ou fugissem de casa. Lou fez amizade com ela. Foi para a Califrnia, assim que terminou o colegial. Como haviam se conhecido em Memphis, era sempre contratada para fazer pontas nos filmes dele. Lou sempre d um jeito de conseguir o que quer.
	As mulheres sempre foram capazes de qualquer coisa por Elvis, no ? E, ainda hoje, ele parece afet-las com a mesma intensidade.
	 incrvel que um homem seja to amado e idolatrado.
	Voc gostaria de ser idolatrada?  Travor perguntou.
	No sei.  possvel.
	Gostaria de ser amada como ele?
O tom de voz profundo e rouco provocou uma mistura de medo e perturbao em Erin.
	Acho que  assustador.
	Em que sentido?
	No consigo imaginar esse tipo de amor.
	Nem eu.
Erin fitou-o.
	E como algum poderia retribu-lo?
	Assim.
Antes que Erin se desse conta do que ele estava fazendo, Travor tomou-a nos braos e enterrou o rosto em seus cabelos.
Segurando-lhe o queixo, ele a fitou nos olhos e, ento, beijou-a com tamanha suavidade, que Erin perguntou-se por que estava tentando reprimir os sentimentos que Travor lhe despertava.
Em seguida, ele desabotoou-lhe a blusa, ao mesmo tempo em que deitava-se no sof, puxando-a sobre si.
Travor abraou-a, deliciando-se ao sentir o calor daquele corpo suave. Devia fazer amor com Erin? Ora, por que tinha de pensar? Por que no se limitava a agir? Porque no seria capaz de fazer amor por diverso, porque no queria mago-la, e no queria se ferir. Seus instintos lhe diziam que Erin poderia destru-lo. Era o tipo de mulher por quem ele se apaixonaria sem o menor esforo, e que seria capaz de despedaar seu corao. E Travor no podia deixar isso acontecer.
O desejo foi se tornando insuportvel para Erin. Queria Travor. No queria mais pensar, ou questionar... Ora, por que no podia esquecer o passado, e concentrar-se no agora? Talvez, aquela fosse sua nica chance de desfrutar do amor nos braos de Travor.
Deixou-se embriagar pelo calor do corpo dele, pelas carcias das mos fortes, desejando com ardor que ele a despisse. Mas ele no o fez. Ao contrrio, interrompeu as carcias e tentou sentar-se.
	No podemos fazer isso, Erin.
	Por que no? Se ns dois queremos, por que no?
	Desculpe. Acontece que... Eu sinto muito.
Furiosa, Erin deu vazo  frustrao.
	Voc est com medo  declarou.
	Por favor, no torne as coisas mais difceis.
	E voc quem est dificultando as coisas. No percebe o que est fazendo? No v qual  o problema?
	No, no vejo nada. Qual  o problema, Erin?  Travor inquiriu, tentando dominar as emoes e o sarcasmo em sua voz. 
	Celeste.
Ele teve um sobressalto. Como Erin sabia de Celeste? No haviam sado de casa, ela no conhecera ningum de Rattan, exceto...
Erin engoliu seco.
	Quando estvamos em Memphis... investiguei voc. Disse que morava em Rattan, no Texas. Pedi seu nmero  telefonista. Nellie estava aqui e...  Ela deu de ombros, rezando para que Travor compreendesse seus motivos.  Eu s queria saber se voc era mesmo quem dizia ser. Desculpe, Travor.
Ele estendeu a mo para toc-la, mas desistiu, como se soubesse que qualquer contato fsico reacenderia as brasas que ainda ardiam.
	Por que precisava me investigar, se at me deixou passar a noite em sua casa?
	No foi ideia minha, lembra-se?
	Devo agradecimentos a um garoto de onze anos... e s fias de Elvis, eu acho.
	Travor, quanto a Celeste...
Erin hesitou. Era bvio que ele no queria falar no assunto. Nem ela, mas precisava saber se ele ainda era apaixonado pela ex-namorda.
	Bem?
	Bem, o qu?
	Celeste. Quer me contar o resto da histria?
	Eu era muito gordo e fiquei mais que lisonjeado com a ateno que Celeste me dedicava. Acho que exagerei ao retribuir tal ateno. Ela era me solteira e lutava muito para sustentar o filho. E eu era um grande idiota. Estava disposto a me casar com ela e assumir a responsabilidade de criar seu filho. A pior parte  que... eu acreditava nos sentimentos dela por mim. Tanto, que comprei o maior diamante que encontrei.
 Mostrou o anel em seu dedo.  Marcamos a data, convidamos a cidade inteira, mas adivinhe? A noiva no apareceu.
Erin percebeu que Travor sentia vergonha da experincia e que estava embaraado por ela saber da verdade.
	Sinto muito, Travor. No tive a inteno de bisbilhotar.
Nellie falou mais do que eu queria saber.
	Tudo bem. Celeste me fez um grande favor. Se houvesse me casado com ela, teria ficado aqui, em Rattan, criando os filhos dela e trabalhando para viver. Aprendi uma lio valiosa.
	Que lio, Travor?
Ele a fitou com olhar duro e frio.
	Ningum jamais voltar a me fazer de bobo.  Ento, sorriu e passou um dedo pelo rosto de Erin.  Nem mesmo voc.

CAPITULO VIII

Ele est agindo como um cretino, Erin pensou, /sentada na varanda,  espera de Travor. Desde a conversa franca sobre Celeste, Travor tornara-se insuportvel. Vangloriava-se de seus poos de petrleo, flertava com ela, fazendo insinuaes de cunho sexual, e parecia outra pessoa. Erin no sabia de onde surgira aquela nova personalidade. Estaria ele arrependido por ter lhe contado que fora deixado no altar? Estaria tentando fazer Erin pagar pelo que Celeste lhe fizera? Naquela mesma noite, Travor a surpreendera, contando-lhe sobre a morte do pai e a doena da me. E do medo que ele sentira. Contara que tentava no pensar a respeito e que no costumava falar sobre sua vida e seus sentimentos com ningum. Erin ouvira atenta, sem interromp-lo.
	Era duro ser gordo. E, por pior que tenha sido para mim, imagino o que seja para uma garota  ele confessara.
E tambm contara sobre a infncia solitria, por ser pesado demais para os esportes, e tmido demais para as outras atividades desenvolvidas na escola.
	Foi assim que aprendi a fazer imitaes. Por diverso.
Quando o pai morrera, a me o chamara e dissera que, a partir de ento, ele era o homem da casa. E Travor levara as palavras a srio. Contra a vontade da me, recusara-se a vender a oficina eltrica do pai, abandonara a escola e passara a cuidar do negcio. Foram anos difceis. Ento, haviam descoberto que Dorothy tinha cncer. Como no tivessem dinheiro para mant-la no hospital, ou para contratar enfermeiras, ele passara a dirigir a oficina em casa, para poder cuidar da me. Quando ela morrera, Travor vendera tudo e investira todo o dinheiro num poo de petrleo. Ento, rezara para que no se tratasse de um buraco seco. Erin olhou em volta. Evidentemente, as preces de Travor haviam sido atendidas.
	Sempre quis aprender a tocar violo  ele declarou, juntando-se a ela na varanda.
Sentou-se com o violo de Lou nas mos e tocou os acordes que Erin lhe ensinara.
	Parabns  ela elogiou.  Voc tem talento.  como se tudo o que voc toca se transformasse em...
	Ouro? Petrleo?
Travor movimentou os ombros e Erin percebeu que ele estava assumindo seu papel.
	Que tal poeira de estrelas?  ela perguntou com uma careta.
	Bem, sou um garoto de ouro  ele falou na mais autntica imitao da voz de Elvis.  Queria saber quando isso aconteceu.
	Lembre-se de que todos temos um momento de glria. Pode terminar to depressa quanto comeou.
 Nunca abuso da sorte  ele declarou, voltando a tocar.
Desde o beijo ardente no sof, Travor vinha insistindo que se dedicassem ao trabalho, a fim de desenvolver sua semelhana com Elvis. A situao era boa para Erin, mas a atitude dele no. Ao que parecia, Travor decidira bancar o gostoso, e ela se irritava com isso. Alm do mais, ele agia como se nada houvesse acontecido entre eles. Ainda flertava e provocava, tocando-a e piscando sempre que podia, mas era como se nada daquilo tivesse o menor significado. Era diferente do que fora antes. Era como se ele estivesse j tentando perturb-la, atorment-la. Estaria se vingando de Celeste? Ou seria aquele o verdadeiro Travor Steele?
Todas as manhs, levantavam-se de suas camas separadas, tomavam caf da manh e, ento, Travor saa para correr. Quando voltava, tomava banho, e os dois assistiam a filmes de Elvis. s vezes, Travor fechava-se no escritrio para tratar de negcios, e ficava ao telefone por mais de uma hora. Durante os ltimos quatro dias, os dois haviam cozinhado juntos, comido juntos, trabalhado juntos... E Erin descobrira que adorava cada minuto com ele.
	Terra chamando Erin. Volte, por favor.
Erin deu-se conta de que Travor falava com ela.
	No que estava pensando? Em mim diante das massas? ele inquiriu com ar arrogante.
	No acho que esteja pronto para enfrentar as massas.
	Ah, no? Pois veja isto.
Travor ps-se de p, abriu as pernas, meteu o violo debaixo do brao e sacudiu o corpo todo com violncia. Erin explodiu em gargalhadas.
	O que vai querer, baby? Jaillhouse Rock ou Hot Dog?l Dontt Be Cruel ou Guitar Man? Estou pronto para o grande show.
Erin levantou-se.
	Pare, por favor! Precisa fazer mais que sacudir e es tremecer. Use os braos e pernas.
Fez uma demonstrao, reproduzindo os movimentos que Elvis Presley costumava fazer em seus shows.
	Nada mau  Travor elogiou, ps Whole Lotta Shakin' Goin' On para tocar alto e imitou-a desajeitado.
	Vai precisar de muita prtica  Erin sentenciou.  Tente este.
Na ponta dos ps, atravessou a varanda, enquanto sacudia o corpo.
	Como faz isso?  ele perguntou, tentando imit-la sem sucesso.
Erin riu e demonstrou mais alguns passos. O corpo dela parecia ter vida prpria, balanando ao ritmo da msica. Travor observou-a.
	Voc  muito boa. No consigo danar assim.
 melhor aprender, pois estamos investindo muito dinheiro em voc. Use os braos. Elvis usava cada centmetro do corpo. Deslizou as mos pelo corpo de Travor, prendendo os dedos na cintura da cala dele. De repente, s queria faz-lo not-la, for-lo a sentir o mesmo desejo e frustrao que ela sentia. Travor tentou afastar-se, mas ela o segurou com fora.
	Mexa os quadris.  Erin puxava e empurrava, fazendo o corpo dele vir de encontro ao dela.  Solte-se, tente de novo. Oua a msica  ordenou, empurrando e puxando-o pela cintura.  Concentre-se. Feche os olhos e pense em Elvis. Mova as pernas, os braos, os quadris e os ombros. Cada centmetro de seu corpo est sentindo a msica. No. Cada centmetro do meu corpo est sentindo voc. Erin passou as mos pelos ombros de Travor. Ento, afastou-se e observou-o.
	Algo est errado.
	O qu?  ele perguntou, baixando os olhos para a camisa aberta. 
	Claro!  Erin exclamou, reaproximando-se.
Travor tentou esquivar-se, mas no foi rpido o bastante.
Erin segurou-o pelo passante do cinto e pousou uma das mos em seu peito.
	Lembre-se de que Elvis no tinha plos no peito.
	Bem, no sou Elvis.
	Tudo tem de ser autntico.  assim que Lou gosta.
Alm do mais, nenhum imitador de Elvis que se preze, daria uma gafe dessas.
	Pois eu daria, e Lou pode...
Chegando mais perto, Erin murmurou:
	Posso usar o barbeador?
	De jeito nenhum!
Ela massageou-lhe o peito.
	Ou deveramos usar cera quente?
Travor estava encurralado contra a parede.
	Pare com isso, Erin.  loucura.
Embora soubesse que devia parar, Erin estava fora de controle.
	Sinto muito, Travor, mas no temos escolha. Prometo que no vai doer nada.
	Isto tambm no  ele sussurrou.
Tomou-a nos braos e levou-a at a rede, do outro lado da varanda. Deitou-a e beijou-a longamente.
Erin amaldioou-se pela prpria burrice. S quisera provoc-lo, atorment-lo. No planejara deixar-se beijar, nem sucumbir ao desejo insano de fazer amor com Travor.
	Quero voc, Erin. Agora  ele murmurou, sem descolar os lbios dos dela.
Ele a queria! Erin respondeu com um beijo ardente, deixando claro quanto o desejava.
Na tentativa desajeitada e urgente de desabotoar-lhe a blusa, Travor rasgou-a. Erin no se importou. Ao contrrio, os botes saltando para longe aumentaram ainda mais a sua excitao.
Em seguida, ele passou a acarici-la com paixo, toman-do-lhe os seios nas mos. Erin arqueou as costas, pressionando o corpo contra ele, atordoada de desejo. Travor beijou-lhe os lbios, o queixo, o pescoo, e foi descendo, at tomar um mamilo entre os dentes, beijando e mordiscando.
O corpo de Erin estremeceu convulsivamente, e ela no pde conter um grito abafado.
Surpreso, Travor fitou-a e viu que ela tinha lgrimas nos olhos.
	Erin, quanto tempo faz?
	No fao amor com ningum... desde... o pai de Max.
Ela no fizera amor com homem algum em onze anos. Onze anos!
As palavras fizeram o sangue de Travor gelar nas veias. Queria virar-se e correr. Ao mesmo tempo, queria abra-la com fora. Porm, no podia fazer isso. Cheio de remorso, afastou-a com gentileza.
	No posso... No devia... Sinto muito, Erin.
	Eu no sinto  ela falou, com as lgrimas rolando soltas por suas faces.
Travor sacudiu a cabea e afastou-se. Segurando a blusa arruinada, Erin observou-o desaparecer na casa. Por que ele no podia se apaixonar por ela? 
Travor sabia que estava a um passo de perder a batalha,  mais que desejasse, no podia fazer amor com Erin. 
No queria ser o assunto da cidade de novo. Jamais se esqueceria o que Celeste fizera.
Mas... Erin era diferente. No flertava e no fazia amor com ningum h tanto tempo.
A ideia de envolver-se com ela era assustadora. Erin precisava e esperara tanto... Travor no sabia se poderia dar o que ela merecia.
Por outro lado, era incapaz de resistir quele brilho que ela tinha no olhar, quele sorriso que misturava inocncia e malcia. E sabia que, a partir do momento em que fizesse amor com Erin, estaria perdido, pronto para fazer o papel de tolo novamente.
Erin acordou sobressaltada. Eram cinco horas da manh e ela estava na cama de Travor. Como ele no voltara para casa,  noite, ela fora se deitar no quarto dele, para no se sentir to sozinha. Sabia que ele no voltaria, que precisava de tempo para conciliar os sentimentos.
Ouviu o rudo de um carro na garagem. Uma porta bateu. Seria Travor? Ningum entrou na casa.
De repente, ela ouviu passos se aproximando da porta que dava para a varanda. Era ele.
Como uma cortina separava a cama do resto do quarto, Travor no a viu. Atirou um jornal e alguns envelopes numa cadeira e despiu-se.
Erin observava tudo pela cortina fina. Viu-o tirar a roupa e ir para o chuveiro. Teve de reprimir o impulso de juntar-se a ele no banho. Em vez de desaparecer do quarto, decidiu esperar. Precisavam conversar, colocar todas as cartas na mesa.
Pouco depois de o rudo do chuveiro cessar, Travor reapareceu com uma toalha enrolada em torno da cintura. Entrou no quarto.
Quieta, Erin o viu apanhar o jornal da cadeira. Ele abriu a primeira pgina e ficou tenso.
	Diabos!  murmurou furioso, antes de acender a luz.
	O que houve?  Erin perguntou.
Travor ficou surpreso, mas a fria logo retornou, e ele atirou o jornal para ela.
	Veja voc mesma.
Sem saber o que esperar, Erin olhou para o jornal e ficou boquiaberta. Na primeira pgina, havia uma grande foto de Elvis Presley, sob a manchete: "O Retorno do Rei!". Ento, uma srie de fotos de Travor, em poses variadas: vestindo macaco de couro preto, cercado de seguranas; entrando no Star Music Studio; em diferentes pontos de Nova Qrleans, acompanhado de Erin. A ltima foto mostrava Erin olhando para a cmera, como se fizesse um sinal ao fotgrafo.
Sentindo a cabea latejar, Erin virou-se para Travor e deparou com um olhar hostil.
	Belo golpe publicitrio. Gostaria de ter sabido antes.
	Ah, Lou...  ela comeou, mas Travor atirou as cartas no cho, interrompendo-a.
	No pode culpar Lou por isso  acusou-a.
Erin fitou-o incrdula.
	Mas foi Lou. No v que...
	O que vejo  voc sorrindo para o fotgrafo. Sabia que ele estava l. Veja a sua mo acenando para ele! E eu, como sempre, fazendo o papel do idiota.
	Travor, juro que jamais faria uma coisa assim, sem discutir com voc antes...
Ele a examinou dos ps  cabea com ar irnico.
	Ao que parece, voc est disposta a fazer qualquer coisa para salvar o seu estdio.
Erin levantou-se da cama indignada.
	Como pode insinuar uma coisa dessa! No sou esse tipo de mulher, e voc sabe disso!
	No sei nada sobre voc. Voc me apanhou num estacionamento, deixou que eu dormisse na sua casa, veio
comigo at o Texas e...
	Est deturpando as coisas.
	Assim como voc deturpou esta histria  ele apontou para o jornal.  O que vir a seguir, Erin? Havia algum fotgrafo escondido no meu quintal?
Erin dirigiu-se para a porta.
Pela ltima vez, Travor. Eu no sabia de nada.
Ele a fitou com ar arrogante.
	Eu devia ter dado ouvidos aos meus instintos. Devia ter sabido que era s uma questo de tempo. J imaginou o que vai acontecer em Rattan, quando virem esta foto? Mas eu juro, Erin. Voc foi a ltima mulher a me fazer de bobo.
Ela empinou o queixo.
	Ora, Travor, acalme-se. Publicidade faz parte do negcio. Qualquer bobo sabe disso.
Com isso, virou-se e saiu do quarto.
O telefone tocou. Travor no queria atender, pois tinha certeza de que era o primeiro de muitos telefonemas. Quando vissem as fotos, seus amigos pensariam que estava louco.
Fazia menos de uma hora que discutira com Erin, e ele sentia o sangue esfriar gradualmente. Ela tinha razo. Deveria ter esperado publicidade. Na verdade, ele havia esperado, mas no to cedo e, principalmente, no em sua cidade.
O telefone voltou a tocar.
	Alo?
	J viu os jornais?
	Lou?
	Espero que Erin no esteja por perto. Deve estar furiosa. Mas eu no podia deixar a situao esfriar. O pessoal daqui ainda est excitado pela sua apario, e com a semana Elvis se aproximando...
Travor sentiu o estmago contorcer.
	Ento foi voc. Erin no teve nada a ver com isso.
	Claro que no. Tive de pagar uma fortuna quele fotgrafo, para perseguir vocs. Ah, se voc vir algum rondando sua casa, no atire. Deve ser o...
Travor j no estava ouvindo. O que tinha feito? Dissera coisas terrveis a Erin, chegara a acus-la de prostituir-se para salvar o estdio. Ah, no...
	Lou  interrompeu-a.  No posso falar agora. Ligo para voc mais tarde.
	Mas, Travor, espere! Diga a Erin...
Ele desligou. Tinha muitas coisas para dizer a Erin.

CAPITULO IX

Erin saiu do avio monomotor para seis passageiros que a trouxera de Gilmer, Texas, para Memphis. Uma fuga perfeita, pensou, perguntando-se se Travor j se dera conta de que ela havia partido. Furioso como estava, era possvel que nem houvesse tentado encontr-la.
Depois de deixar Travor em seu quarto, Erin apanhara algumas roupas e a bolsa, na inteno de sair com sua pickup e passear um pouco, at seus nervos se acalmarem. Porm, assim que sara da casa, Nellie chegara.
 Voc est encrencada  dissera.  Espero que esteja pronta para confessar os seus pecados.
No momento em que as palavras foram pronunciadas, Erin soube que tinha de ir embora de Rattan imediatamente. Estava cansada do estilo de vida da cidade pequena, do modo de pensar daquela gente e, principalmente, do Elvis do interior. E fizera questo de dizer isso a Nellie.
Para sua surpresa, Nellie cara na risada, fizera Erin entrar em seu carrinho e a ajudara na fuga. Depois de conversarem, Nellie sugerira que falassem com um primo dela, que tinha um amigo, que tinha um filho que possua um pequeno avio. Assim, Erin negociara um vo particular para Memphis. O que lhe custara uma pequena fortuna. E agora, pensou, aqui estou, dentro de um txi, quando devia ter telefonado para Lou ir me apanhar no aeroporto. Decidira no telefonar por no estar disposta a responder qualquer pergunta sobre Travor Steele.
Poderia ter voltado na pickup, mas sabia que deveria deix-la para Travor. Afinal, ele teria de voltar a Memphis para apanhar sua motocicleta. Alm disso, precisava voltar logo para casa. Se Lou fora capaz de contratar um fotgrafo para segui-los, s Deus sabia o que mais fizera. E Erin tinha de dar um basta  situao o quanto antes, especialmente diante das circunstncias atuais.
Agora que tinha os ps em solo familiar, a raiva misturava-se  dor e  confuso.
Como a situao fugira ao controle daquela maneira? Repassou tudo o que acontecera, bem como as acusaes de Travor, e tudo o que teve vontade de fazer foi chorar.
Era estranho estar de volta. Memphis parecia um lugar desconhecido. No havia sons, nem aromas interioranos.
Pior: no havia Travor Steele. Mais uma vez, Erin tentou afast-lo da lembrana, mas era impossvel. Por mais furiosa I que estivesse, j sentia falta dele. Era incrvel como se habituara a Travor, como se fosse parte dela. Como se fossem passar o resto de suas vidas juntos.
Teria sido muito bom passar o resto da vida em Rattan, com Travor. Sendo esposa dele. Teria sido uma boa esposa? Ou logo ficaria entediada com a vida montona do interior? E Max? Seria agitado como a av, incapaz de relaxar e viver uma vida tranquila? Erin suspeitava que sim. Bem, isso no tinha mais importncia. Olhou pela janela do txi, para as ruas conhecidas de Memphis.
Max devia estar na escola; Lou, no estdio. Erin s queria ficar sozinha, tomar um longo banho e chorar todas as lgrimas pelo que poderia ter sido. Por outro lado, para qu desperdiar energia? No nascera para ser a sra. Steele. Suas vidas eram muito diferentes. Reprimiu as lgrimas, tentando livrar-se da dor.
Depararam com um grande congestionamento quando entraram na rua de Erin.
	Acho que no conseguirei chegar at l, senhorita  disse o motorista.
	Tudo bem. Descerei aqui e irei a p.
Saiu do txi e pagou ao motorista. Viu uma multido diante da casa de Lou.
	Ah, meu Deus! O que est acontecendo?
Rezou para que no fosse mais um ssia de Elvis. Quando se aproximou, avistou Lou e Max parados ao lado de sua cama. Os dois olharam para Erin sem dizer nada. Erin sacudiu a cabea. Um cartaz sobre a cama dizia: "Jerry Lee Lewis Dormiu Aqui  $50". Sem conseguir controlar-se, ela explodiu em gargalhadas.
	Jerry Lee Lewis... dormiu em minha cama? Eu no sabia.  Mal podia falar, de tanto rir.  Quando Jerry Lee Lewis dormiu na minha cama, Lou? Quando ele esteve em nossa casa?
Teve de dobrar-se sobre os braos, sem conseguir controlar o ataque de riso. Max e Lou entreolharam-se confusos.
	Mame! O que houve?  Max perguntou.
	Jerry Lee Lewis. Por que no Waylon Jennings, Lou? Ou melhor, algum que eu pudesse dormir junto, como Alan Jackson, ou Garth Brooks? E que tal Tim McGraw, Lou?
Erin percebeu que a multido afastava-se dela, como se fosse uma maluca. Estaria louca? No conseguia parar de rir e sabia que suas palavras no faziam o menor sentido.
	Mame, estamos apenas vendendo parte da moblia.
	No  verdade  Lou corrigiu o neto, e virou-se para a filha.  Voc disse que no queria mais esta cama. O que est acontecendo com voc? Est se sentindo bem?
	Claro que estou bem. Tudo est perfeito. Meu filho est matando aula, minha me est vendendo minha cama e... e... Travor est l no Texas... lou... louco da... vida.
Erin explodiu em lgrimas.
	Eu no tinha nenhuma prova hoje, mame. Est zangada porque no fui  aula?
Ela se ps a soluar.
	Mame?
Lou passou o brao em torno dos ombros de Max.
	Ela no est zangada com voc, querido.
Erin olhou para os dois, ento saiu correndo, sem se importar com o que aquela multido pensava a seu respeito." Ao alcanar a porta da frente, ouviu Lou lamentar:
 Max, sua me finalmente se apaixonou por algum! E eu estraguei tudo!
Da janela de seu quarto, Erin observou Lou fixar a placa j de Vende-se no gramado do jardim. Na vspera, depois de Erin inform-la de que Travor estava fora de cena, Lou vendera seu pequeno conversvel. Era verdade que queimava leo e tinha problemas na transmisso, mas Lou adorava o carrinho, pois pertencera a Conway Twitty.
Tudo havia se transformado numa grande confuso. Nada estava certo. E Erin sentia-se culpada pelo que estava acontecendo. Se houvesse se mudado para a casa de Lou um ou dois anos antes, em vez de ter insistido em preservar sua liberdade... Se houvesse se dedicado  promoo do supermercado, em vez de investir tanto tempo em Travor Stee-le... Ah, e se houvesse ficado em Rattan, tentado argumentar com Travor, apazigu-lo...
Sentiu um grande vazio no peito. A dor era quase insuportvel. Amava um homem que a detestava, e sua famlia ', estava sofrendo por isso. O que poderia fazer? Tinha de haver alguma coisa. Do contrrio, perderiam tudo o que possuam-. Por outro lado, poderiam comear de novo. No era isso que Lou sempre dizia? Que era por causa de cada fim que surgia um novo comeo? Lou no pregara isso a vida toda? Quando Kyle morrera no acidente de nibus, Lou falara sobre isso. E Max fora o novo comeo de Erin. Quando Elvis morrera, Lou tivera seu novo comeo, comprando aquela casa e o Star Music Studio.
Lou no estava deprimida. Era capaz de recomear com um sorriso nos lbios. Por um momento, Erin amou a me mais do que nunca. Olhou para o quarto. Ningum comprara a cama usada por Jerry Lee Lewis, que fora levada para a garagem. O colcho estava no cho.
Erin perguntou-se por que no herdara o esprito aventureiro da me, bem como sua coragem e determinao.
Ento, lembrou-se das palavras de Travor: "Voc  igualzinha  sua me."  verdade, pensou surpresa. Sou como Lou.
Gostava do mundo musical tanto quanto a me. E, apesar de ter protestado, Erin ficara excitada com a ideia de treinar Travor, pois acreditava no projeto de Lou. Sempre fora assim. Por mais que detestasse admitir, acreditava na me. E fora a que errara. Em vez de t-la deixado cometer erros, e brigado com ela a cada um deles, deveria t-la ajudado. Mas, no. Tornara as coisas mais difceis para ambas.
Empinou o queixo e acabou de vestir-se. Ento, fez uma careta para o espelho.
	De agora em diante, tudo ser diferente, pois sou idntica  minha me: esperta, criativa, inovadora e corajosa.
E, se no comear a agir assim, perderemos tudo.
Ento, saiu do quarto.
Lou estava apoiada na placa, olhando a vizinhana.
	Com licena  Erin falou e arrancou a placa do gramado.  No estou reconhecendo voc, Lou.
	E melhor nos acostumarmos  ideia da falncia, Erin.
Se Travor est fora da jogada, ento tudo foi por gua abaixo.
	Ora, por quem me toma?  Erin fingiu-se indignada.  Deixei a pickup com ele, alm dos livros e filmes. Ele sabe onde moramos. E, alm do mais, tem de vir buscar a motocicleta. Ento, ns os agarraremos.
Lou sorriu.
	De que vai adiantar? Voc mesma disse que ele est furioso com a histria de fazer papel de bobo. Como pode ramos us-lo para personificar um Elvis dos anos noventa?
 melhor colocar a placa de volta.
Erin ps o brao nos ombros da me.
	Vamos tomar um caf e discutir o assunto. Vou lhe explicar porque no precisamos de Travor Steele, de Rattan, Texas. E tem tudo a ver com trabalho de equipe.
	Ora, sempre trabalhamos em equipe.
	Muito bem, Lou. Temos algum ssia de Elvis inscrito no concurso da semana que vem? E voc ainda tem aqueles pralins deliciosos para acompanhar o caf?
Travor ergueu os olhos para a torre. Era imensa e majestosa. Fazia trs dias que estava acampado em seu poo de petrleo. Depois que Erin partira, no pudera suportar as lembranas que sua prpria casa lhe infligia. Agora, perguntava-se a quem estava tentando enganar. Nem por um instante, conseguia afastar Erin da memria.
Porque jamais conhecera uma mulher como ela. E a simples lembrana de Erin o deixava atordoado.
Quando Lou telefonara para falar do golpe publicitrio, Travor correra at o quarto de Erin, disposto a pedir desculpas, implorar o seu perdo. Teria rastejado se necessrio, faria qualquer coisa para que ela esquecesse as barbaridades que dissera. Porm, Erin no estava l. Fora embora. Mais tarde, Nellie aparecera e lhe contara sobre a partida dela. Travor fechou os olhos, tentando afastar a lembrana. No fazia diferena ela no ter participado do golpe. O que importava era que ela o abandonara e o deixara sozinho para enfrentar o que viria.
Todos os dias, os jornais traziam fotos de Elvis e de Travor com Erin. Ao mesmo tempo em que era estranho ver a si mesmo nas bancas, agora tudo parecia uma simples tolice. No era o drama da primeira vez.
Fora chocante ver a foto de Elvis to gordo, to diferente do rapaz sexy e viril que Travor vinha tentando imitar. E era isso o que realmente o perturbava. Aquela fotografia horrvel. Era como se os dois houvessem trocado de lugar. Mas nada mais importava, pois estava tudo acabado. Travor no podia e no queria ser Elvis. E no queria mais ter qualquer envolvimento com Erin Weller. Se ela realmente se importasse com ele, teria ficado e lutado. No era isso que as pessoas apaixonadas faziam? Lutar por seu amor?
Ora, ele no fazia ideia do que as pessoas apaixonadas faziam. S sabia que, por mais que tivesse sofrido quando Celeste o deixara, desta vez o sentimento era muito, muito pior. E ele no conseguia entender por que.
 Estou contente por nossas preocupaes terem chegado ao fim, Travor.
O capataz responsvel pela perfurao dos poos sorriu, aproximando-se. Fora ele quem, seguindo seus instintos, sugerira a Travor que perfurassem mais fundo, o que lhes proporcionara lucros incalculveis. E Sam fora o nico a no fazer qualquer comentrio sobre as fotos nos jornais.
	Voc  um bom homem, Sam.
	Acho que devia ir at minha casa e dizer isso  minha mulher. Ela no tem estado muito contente comigo, ultimamente.
Travor riu e, como Sam continuasse parado  sua frente, perguntou:
	Quer me dizer alguma coisa, Sam?
O velho corou.
	Bem, Travor, sei que  uma bobagem, mas... Martha Jean... Temos todos aqueles jornais em casa e... Bem, ela gostaria de saber se voc faria a gentileza de nos fazer uma visita e autografar as fotos para ela.  Diante da expresso surpresa de Travor, Sam acrescentou:  Vai aprender, Travor, que, em se tratando de mulheres, tudo  possvel. Acredite na voz da experincia.
Travor ainda refletia sobre as palavras de Sam, quando chegou em casa. Decidira que j estava na hora de enfrentar a solido e o vazio, por mais que doesse. Ficou surpreso ao deparar com Nellie varrendo a varanda.
	Ainda bem que resolveu voltar  ela falou.  Logo imaginei que estava no poo, por isso, vim alimentar os cachorros.
Travor aproximou-se. Embora se sentisse grato pela preocupao dela, ressentiu-se de sua presena ali. Esperara poder ficar sozinho, para inspirar o perfume que ficara em sua casa, e do qual ele sentia tanta falta. Mas, com Nellie por perto, teria de ter cuidado, pois ela no perdia um detalhe sequer.
	Est com fome? Tem uma torta de legumes no forno.
	Boa ideia  ele falou, entrando na casa.
A casa rescendia a pinho, como sempre que Nellie a limpava. Travor ficou ainda mais ressentido. Nellie apagara todos os vestgios de Erin. Porm, era bom, pois ele j tinha lembranas demais para atorment-lo.
Perguntou-se se algum dia conseguiria tirar Erin da cabea. 
	Sente-se. Vou pr a mesa para voc. O programa da Oprah vai comear em meia hora e, se voc no se importar, eu gostaria de assistir na sua televiso, porque  maior. Hoje, ela vai entrevistar algumas mulheres que foram casadas com imitadores de Elvis. Vo contar como  viver com um homem dedicado a imitar uma lenda.
	Ah, meu Deus!  Travor resmungou.  Ser que o mundo inteiro ficou maluco por Elvis?
Nellie deu de ombros.
	Isso vem acontecendo j faz tempo. Acho que nunca demos ateno, por aqui. E, pelo artigos que li nos jornais, Elvis  uma estrela agora, tanto quanto foi no passado. J me associei a trs f-clubes.
	Nellie!  Horrorizado, Travor sentou-se.
Nellie continuou, enquanto arrumava a mesa.
	Alguns de ns estamos pensando em fundar nosso prprio f-clube. No h nenhum por aqui e, como dizem os artigos, ele esteve no Texas, fez shows em Gladewater.
E, com voc sendo to parecido com ele, e capaz de imit-lo, achamos certo...
	Voc enlouqueceu?  Travor fitou-a incrdulo.  No pode achar que eu faria uma coisa dessas! Seria o mesmo que me transformar no bobo da corte do Texas! Pior do que quando Celeste me deixou plantado no altar. Ah, no. Pode demorar um pouco, mas vou superar tudo isso.
Nellie ps as mos na cintura.
	Do que est falando, Travor? Superar o qu?
Travor deu-se conta de' que jamais conversara sobre Celeste com ningum, exceto Erin.
	Eu sei que banquei o bobo da corte, quando Celeste no apareceu. Nunca vou me esquecer. Voc estava sentada na segunda fila, a sra. Lucas tocava o piano, e MaeBelle Shirley cantava, enquanto espervamos. Quando MaeBelle cantou Oh Promise Me pela terceira vez, vi voc piscar para a sra. Lucas, que olhou para MaeBelle e piscou e... Vocs j esperavam, no ? Todos sabiam que Celeste no ia aparecer.
Nellie sentou-se.
	Meu Deus! Foi isso o que voc pensou? Que todos ns sabamos de alguma coisa e no lhe contamos? E por isso que tem evitado ficar na sua prpria cidade?
	Eu me senti um palhao. O que mais voc esperava?
	Travor, nunca imaginamos que voc ficaria to magoado. Se soubssemos...
	O que est querendo dizer?
Nellie sorriu.
	Vocs tiveram alguma coisa a ver com a fuga de Celeste, Nellie?
	Se ainda se lembra, ningum gostava muito de Celeste Fillmore.
	Sim, eu me lembro.
	Achvamos que ela no era o tipo de moa que sua me gostaria de ter como nora. Ento...
	Ento, o qu?
	Fizemos uma corrente de preces especial. Todas as mulheres da igreja se juntaram para rezar, pedindo a Deus que interviesse e no permitisse que voc se casasse com Celeste.
Travor fitou-a boquiaberto, sem acreditar no que ouvia.
	Quando pisquei para a sra. Lucas, e ela, para Mae Belle, estvamos apenas confirmando o poder do Senhor em atender preces. Rezamos para que voc fosse libertado das garras de Celeste Fillmore, e voc foi. Todos na cidade sabiam da corrente, e ningum achou que voc era bobo. S voc mesmo, eu acho.
Travor continuava boquiaberto. Estaria Nellie dizendo a verdade? Tudo no passara de mero produto de sua imaginao?
Nellie continuou, sem prestar ateno ao estado de choque de Travor.
	Ora, a fuga de Celeste foi o maior milagre que j presenciamos. O reverendo Perkins concorda.
Travor andou de um lado para o outro. Nada fora como ele havia imaginado. Ningum pensara coisa alguma de Celeste no aparecer, simplesmente por que... ele sorriu, haviam planejado assim. 
Ah, sim, fora um tolo, mas fizera isso a si mesmo. E s porque tivera medo de se arriscar, de se apaixonar. E qualquer tolo veria que Erin era diferente, que valia qualquer risco. De repente, Travor soltou uma risada, sentindo-se livre e jovem. Tomou Nellie nos braos e girou-a no ar.
	Pare com isso, moleque bobo!  ela ordenou.
	No posso  ele falou com um sorriso largo.  Nellie, sirva-me um grande pedao de torta de legumes. Depois, ligue para o seu grupo de preces. Vou precisar de ajuda de novo.
	Com aquela garota de Memphis?
	Nellie, no v achar que ela tambm no serve. Eu a amo.
Nellie sorriu.
	E, mesmo que ela ainda no saiba, ela tambm te ama.
A sala estava repleta de bolas de papel. Travor sentava-se no sof, segurando o controle remoto. Naquele filme, Elvis estava sentado em barras, cantando a "cano da confiana" para um grupo de garotos. Travor fez algumas anotaes, voltou a fita e assistiu  cena novamente.
Ao analisar filmes e msicas, Travor descobrira o verdadeiro valor de Elvis. E catalogara as cenas musicais: praias, boates, cantando para mulheres, cantando para crianas, cantando para animais, festas. Por alguma razo, comeava a sentir-se um pouco como Lou: fantico.
	Como poderamos promover Elvis nos anos noventa?  perguntou em voz alta.
Se encontrasse aquela resposta, talvez fosse capaz de resolver os problemas financeiros de Erin e Lou.
Sentou-se no sof e pensou em todos os filmes a que assistira. O que tinham em comum? Msica, garotas, carros ou motocicletas, amor, crianas, dinheiro ou a falta dele. Esfregou o queixo e estreitou os olhos,  medida que uma ideia se formava em sua mente. Fez anotaes rpidas.
Duas horas depois, apanhou a fita demonstrao de Kimbie Love.
	Agora, vejamos o que podemos fazer com voc.

CAPITULO X

Erin atirou a bolsa no sof assim que entrou em casa.
	Aquele concurso foi uma vergonha. Nunca vi tanto papel crepom e cintos de plstico em minha vida. E aquelas roupas...
Lou seguiu a filha e atirou-se numa poltrona.
	Se aqueles sujeitinhos querem imitar Elvis, deviam se dar ao trabalho de imitar direito. Afinal, quanto vale aquele cinto de couro legtimo, encrustrado de diamantes?
Erin riu.
	Quando aquele Elvis de oitenta anos agitou a capa, enroscou-se nela e caiu do palco, no acreditei! Ainda bem que os mdicos estavam l  Erin riu de novo, tirou os sapatos e estendeu-se no sof.  Detesto admitir, Lou, mas se Travor houvesse participado, teramos sido os vencedores, sem o menor esforo.
Lou empertigou-se na cadeira.
	Fico contente em ouvi-la dizer isso. Por que no ligamos para ele, s para perguntar como est passando?
	No.
	Mas eu quero meus livros e filmes de volta. J faz quase trs semanas.
	Nem duas  Erin corrigiu-a.
	Parece mais.
Erin sorriu.
	Porque voc  muito impaciente.
Porm, ela concordava com a me. Parecia mais. E Erin comeava a duvidar que voltaria a ver Travor Steele. No meio da noite, acordava certa de que ouvira a voz dele chamando seu nome. Ento, sua imaginao fugia ao controle, e ela sentia o perfume dele no quarto, enquanto suas mos tateavam o peito coberto de plos.
Sacudiu a cabea e tentou afastar os pensamentos. Amava Travor e precisaria de todas as foras para viver sem ele, mas conseguiria, com a ajuda de Lou e de Max. Felizmente, eles no estavam interferindo como de costume.
Erin sentara-se com os dois, e tentara faz-los compreender que Travor Steele jamais seria capaz de viver como eles, pois sua vida fora completamente diferente.
- Olhem para ns  dissera.  Fazemos papel de bobos todos os dias. Ele no seria capaz de conviver com isso.
Lou apegara-se  frase "todos os dias". Max mostrara-se preocupado em recuperar a pickup. Porm, ambos haviam concordado em deixar Travor em paz e no interferir. Erin no lhes contara que o amava, que sentia falta dele e que mal podia imaginar sua vida sem ele.
De repente, o telefone tocou, e Erin deu um pulo.
	Vai atender, desta vez?  Lou perguntou.
	No. J disse que no quero falar com ele, mas voc pode, se quiser, desde que no tente convenc-lo a bancar o Elvis de novo.
Lou sacudiu a cabea.
	 melhor no. No confio em mim mesma. Acho que seria capaz de implorar a ele que volte para Memphis.
As duas olharam para o telefone, at Erin levantar-se e correr at a porta da frente, para chamar Max, que conversava com alguns garotos da rua.
	Depressa! Voc tem de atender!
	Ah, mame... O que vocs duas fazem quando no estou em casa?
	Transferimos as ligaes para o estdio.
Erin observou Max apanhar o fone.
	Al?... Sim... Sim... Certo. Acho que sim... No... Est bem.
Ele desligou e correu para a porta.
	Ei! Quem era?  Erin gritou.
Max virou-se para fit-la.
	Quer mesmo saber?
	No banque o engraadinho. Era quem estou pensando?
	Quem voc est pensando?  Max inquiriu.
	Max Weller, diga-me se era Travor Steele agora mesmo, ou seu fim-de-semana estar cancelado a partir de amanh, logo depois da escola.
	Tenho aulas particulares depois da escola, amanh.
Erin estreitou os olhos e viu Max abrir a porta e colocar a cabea para fora.
	Ei, amigos, estou de castigo. Vejo vocs na semana que vem.
Confusa, Erin ficou parada, sem saber o que pensar. No viu Max fazer um sinal de positivo com o polegar para Lou, antes de correr para o quarto.
Travor puxou o chapu sobre o rosto ao parar no semforo. Acabara de chegar em Memphis e tinha quinze minutos para apanhar Max na escola. No queria se atrasar. Precisava descobrir o que estava acontecendo, e o menino parecia o nico disposto a conversar com ele. Se  que se poderia chamar o discurso monossilbico de conversa. No muito diferente da nica vez que conseguira falar com Erin. Travor pedira desculpas pela maneira como agira com ela, pelas coisas horrveis que dissera. Ela aceitara suas desculpas, mas falara com frieza e distncia. Depois disso, nunca mais atendera o telefone. Nem Lou.
Teriam perdido o interesse pelos vdeos de Elvis? Travor achava estranho o fato de Lou no ter enviado nenhum recado, pedindo que ele voltasse a Memphis. Ou que no tivesse pedido os livros e os filmes de volta.
Mas nada daquilo importava, agora, pois ele tinha uma proposta irrecusvel para elas. Uma proposta que poderia no s salvar o Star Music Studio, mas coloc-lo em posio de vantagem. Trabalhara noite e dia, assistindo aos filmes de Elvis, aos documentrios, e lendo os livros, s para poder falar sobre o Rei. Tentara analisar a ideia do ponto de vista   1 de Lou e, ao mesmo tempo, imaginar todas as perguntas  que Erin faria. Sabia que ela questionaria a proposta, apontaria todos os riscos, mas Travor estava preparado. Agiria como costumava fazer diante de seus investidores. Apontaria as possveis perdas, bem como os lucros potenciais.
Se Lou Weller realmente queria manter viva a memria de Elvis, aquele era o caminho a seguir, a nica maneira de promov-lo nos anos noventa. E a nica maneira de ganhar dinheiro com isso. Olhou para a maleta no banco do passageiro. Fizera uma lista de filmes, cenas e canes, e escrevera sugestes de como usar cada um. A dificuldade sria convencer Lou de que o mundo no precisava de mais imitadores de Elvis Presley. A ideia era boa, pensou, agarrando o volante. E ia dar certo. Na verdade, Travor estava to impressionado com as possibilidades de sucesso, que estava disposto a financiar o projeto. Perguntou-se como Erin se sentiria a respeito.
Sorriu, mexendo no chapu e imaginando a expresso de Erin.
	Ah, senhorita, tenho uma grande proposta para voc!
Travor viu Max  sua espera, debaixo de uma rvore em frente  escola. A bicicleta estava encostada no tronco. O menino acenou e ele parou ao seu lado.
Max abriu a porta da pickup e colocou a bicicleta dentro dela.
	Oi! Eu disse  minha me que tinha aulas particulares depois da escola. Vai ficar para sempre, desta vez? Mame disse que voc tem uma poro de cachorros. O que  isso em seu cabelo? No est nem um pouco parecido com Elvis.
Travor riu e tirou o chapu.
	O que acha? Um amigo me deu uma tinta cinza. No posso correr riscos por aqui.
	Legal. Uso essa tinta no Halloween, s vezes.  Max sentou-se no banco do passageiro.  A semana Elvis j terminou, mas ainda temos muitos turistas por aqui. Vov disse que todos pensam que podem imitar Elvis. Devia ter visto os concursos. Voc teria vencido. Apresentaram at uma mulher! Pode imaginar uma mulher imitando Elvis? Voc teria vencido. At mame disse isso.
	E como vai a sua me?  Travor perguntou.  Por que ela no atende o telefone?
Max sorriu com malcia.
	Mame est apaixonada  respondeu.
	O que est dizendo? Sua me, apaixonada? Por quem?
Max deu de ombros e olhou pela janela.
	No me pergunte. Foi o que vov me disse. Tambm acho que no faz sentido.
As palavras de Max aterrorizaram Travor. Seria verdade? Teria Erin se apaixonado por outro homem? Teria a estupidez de Travor feito com que ela se atirasse nos braos de outro? Pela primeira vez, Travor pensou em sua vida sem Erin. Tudo o que viu foi um motoqueiro solitrio, viajando por uma estrada deserta. No fora isso o que planejara. No gostou do que viu. Queria Erin consigo, o corpo firme contra suas costas. Queria sentir os braos dela em torno de sua cintura, as pernas dela coladas s suas. E queria Max com eles. De que adiantaria conhecer lugares, se as pessoas que amava no estivessem com ele?
	Sua me no pode estar apaixonada por outro  falou, lanando um olhar desesperado para Max.
Max empinou o queixo, num gesto idntico ao da me.
	Que diferena faz para voc? No vai ficar conosco. Voc mesmo disse que ia viajar pelo mundo e conhecer todos os lugares.
Travor segurou o volante com fora. Era a primeira vez que via o lado inseguro e vulnervel de Max. No o agradou a ideia de que poderia magoar aquele garoto e sua me.
	As coisas mudaram  murmurou, reprimindo um n na garganta.
	Como?
De repente, tudo o que desejava na vida era ver aquele rostinho sardento sorrir.
	J viu um buddy seatl Aquele tipo de carrinho que se coloca ao lado de motocicletas?
Max sacudiu a cabea.
	Nem eu, mas vamos procurar um.
Max voltou a olhar pela janela, para que Travor no visse o seu sorriso. Sua av garantira que o plano daria certo. Agora, estava na hora de dar o segundo passo.
	Mame est muito estranha. Experimentou a venda de olho da vov e disse que vai comear a usar uma, tambm.
Travor franziu o cenho.
	Por qu? No se ofenda, Max, mas no acha que uma louca na famlia j  o bastante?
Max deu de ombros.
	Ela diz que  igualzinha  vov. Nunca pensei. Vov sempre foi muito mais divertida.
Travor soltou uma risada e bateu no volante, dando-se conta do que Max acabara de dizer. Erin apenas repetira suas palavras. Ele dissera que ela era igual  me, e agora ela estava aceitando o fato. Bom sinal, pensou. Sentiu-se excitado e teve de conter o impulso de abraar Max. Porm, no resistiu e afagou os cabelos do menino.
	Obrigado, garoto. Fico devendo esta.
Os dois sorriram, ento Max estalou os dedos.
	J ia me esquecendo. Vov est se desfazendo de toda a coleo.
	Tudo o que tem de Elvis?
	Uma parte. E a coleo de Jerry Lee Lewis. Ela gosta dele, tambm. E Cari Perkins. O aniversrio dela  nove de abril, a mesma data do dele. Ela costuma dizer que so gmeos.
	Por qu?
	Porque nasceram no mesmo dia.
	Quero saber por que ela est se desfazendo de tudo.
	Decidiu doar tudo para um museu. Disse que tinha de se livrar de toda a sua parafernlia, e estar pronta para quando uma oportunidade surgisse.
Travor estacionou diante de uma lanchonete.
	Vou lhe pagar um sorvete, camarada, enquanto me conta tudo. Depois, vou lev-lo para casa. A grande oportunidade est chegando.
Max soltou o cinto de segurana, sorrindo de orelha a orelha. Sabia que a oportunidade estava chegando, porque bancara o cupido, exatamente como a av o ensinara.
Travor tratou de disfarar a decepo quando Lou abriu a porta. Max avisara que a me devia estar no estdio. Tudo bem. Conversaria com Lou, primeiro. Erin, certamente, seria bem mais difcil de convencer. Lou, por outro lado... Ora, ele sabia como ela estava faminta por projetos de Elvis.
Lou examinou-o da cabea aos ps.
	Que cabelo  esse? Parece que voc pode interpretar quem quiser. Ou foi Erin que o deixou assim?
Ela riu da prpria piada, acompanhada por Max. Travor entrou.
	Por que no tem atendido as minhas ligaes?
	Fizemos um trato com Erin. Prometemos que ficara mos fora da histria. E ficamos, no foi, Max?
Max sorriu.
	Sim, mais ou menos.
Travor sacudiu a cabea.
	Pois, desta vez, no deviam ter ficado de fora.  Balanou a maleta no ar.  Est interessada em trabalhar comigo?
Lou ficou surpresa.
	Bem, sim, mas voc no vai desaparecer, depois que comearmos, no ?
	Desta vez, iremos at o fim.
	Que fim?
	Vamos discutir no escritrio  Travor falou, encaminhando-se para a cozinha.  Max, se sua me chegar, trate de mant-la ocupada at terminarmos. Tenho algo diferente para ela.
Erin andava de um lado para o outro. J tirara o esmalte de duas unhas, mordera o lbio at doer e, agora, estalava as juntas dos dedos.
	Mame, aprendi na escola que estalar os dedos causa danos s cartilagens.
	Por que no me diz logo o que est acontecendo? E bvio que sabe de alguma coisa. O que Travor lhe disse? O que ele tem para mim? Diga exatamente o que ele falou a meu respeito. No, no. Pensando bem,  melhor voc no dizer nada. No quero saber.  Como Max continuasse em silncio, ela desistiu.  Est bem, conte tudo. Ele falou alguma coisa sobre mim?
Max riu, deliciando-se com a situao.
	Ele disse: "Ela falou alguma coisa sobre mim?"
Erin atirou-lhe uma almofada.
	Mame, voc est parecendo as garotas da escola.  Ele fingiu uma voz feminina e afetada.  Ele falou alguma coisa? Acha que ele gosta de mim? Ah, ele  to lindo!
Max rolou no sof s gargalhadas.
	Max, isto  um pouco mais srio.
	Por qu?
	Porque... bem, ... diferente.
	Vov falou que voc est apaixonada.
	Ah, no! Voc no disse isso a ele, disse?  Max no respondeu e Erin sentou-se.  Max, voc falou, no foi? Disse que estou apaixonada por ele.
	No. S disse que voc est apaixonada.

	E o que ele disse?
Max riu de novo.
	Ele disse: "Por quem?"
	Como se ele no soubesse  Erin resmungou irritada.
	Nossa, mame, est mesmo apaixonada por Travor? Espero que sim, porque ele  legal. Travor  radical. Acho Travor...
	Max, por favor. Disse alguma coisa a ele que eu deva saber?
	Bem...  Max coou o queixo, fingindo concentrar-se.
	Por que estou me submetendo a isso? No preciso esperar aqui. Esta casa  minha, tambm! Pouco me importa o que ele disse. Vou at l e...
Travor apareceu na porta e apoiou-s no batente.
	E o qu?
Erin sentiu as faces corarem. Ele estava maravilhoso, mesmo com aqueles cabelos estranhos. A cala jeans colava aos msculos das coxas. Erin nunca o vira de jaqueta. Parecia um heri do velho oeste. Controlando as emoes, ela empinou o queixo.
	E... descobrir o que est acontecendo.
Travor fez um sinal, convidando-a a acompanh-lo at a cozinha.
	Chegou bem a tempo  falou.
Sentaram-se  mesa da cozinha. O corao de Travor batia descompassado, mas no por causa da proposta que ia apresentar. Era Erin. Ela parecia muito contente por v-lo. Embora houvesse empinado o queixo, naquela atitude obstinada que lhe era peculiar, os olhos dela brilhavam, e um esboo de sorriso curvava-lhe os lbios. Teve de conter o impulso de tom-la nos braos e beij-la. Teriam tempo mais tarde. Assim que ficassem a ss, Travor a beijaria com a intensidade da saudade que sentira.
	Ele no fez nada alm de me provocar, Erin. E de me oferecer sociedade. J tenho uma scia. Dois scios, se contarmos Max.
	Est dizendo que no me quer como scio?
Lou coou o queixo e olhou para Erin, que retribuiu o olhar. Travor podia sentir a conversa silenciosa entre me e filha no ar.
	Ora, vamos, senhoras. Sabem que sou honesto. E o seu plano funcionou. Vocs sabiam que ia dar certo.
	Que plano?  Erin perguntou.
	O plano Elvis. Como pode algum comer, beber e viver Elvis Presley, sem se tornar fantico? No era com isso que estavam contando? Que eu me tornasse um fantico?
Erin e Lou entreolharam-se e deram de ombros, como se no fizessem ideia do que ele estava falando.
Travor riu. Talvez elas no houvessem planejado transform-lo num fantico, e isso houvesse acontecido por acaso.
	Est nos dizendo que tem uma ideia boa. To boa que at gostaria de fazer parte do projeto.  Lou espalmou as mos sobre a mesa.  Acabe com o suspense. Diga logo o que tem em mente.
Travor inclinou-se para a frente e respirou fundo. Aquilo estava ficando mais excitante do que o negcio com petrleo.
	Senhoras  falou.  A ideia  to boa, que fico chocado em pensar que ningum ainda tenha feito isso. Mas tenho certeza de que ser feito...  s uma questo de tempo.
Erin sentiu os cabelos arrepiarem na nuca. Ele estava falando srio.
	O que , Travor?
	Crianas. Crianas e Elvis.
Lou franziu o cenho, mas era evidente que Erin compreendera. Ele tratou de concentrar-se na tentativa de fazer Lou compreender.
	Diga-me, Lou. Por que quer tanto fazer isso?  s pelo dinheiro?
Lou ficou indignada.
	Claro que no! Quero mostrar ao mundo que Elvis no morreu. Est vivo... nas suas msicas e filmes e...
	Certo! Grande!  exatamente o que podemos fazer. Mas no se faz isso com gente que j conhece Elvis. Estas pessoas j decidiram se gostam dele ou no. Mas as crianas, Lou... e os adolescentes... a est o nosso pblico.
	Ento, por que ningum nunca pensou nisso?
Erin respondeu por ele:
	Porque esto todos ocupados com personagens de desenhos animados e dinossauros e...
Travor assentiu, excitado demais para deix-la continuar.
	Em quase todos os filmes de Elvis, existem cenas com crianas. Ele canta Old McDonald na carroceria de um caminho, canta para um cachorro, sobe num carrossel, e brinca com duas menininhas asiticas.
	Podemos fazer vdeos infantis, usando cenas dos filmes... ou ento...  Erin comeava a empolgar-se.
Lou ps-se de p.
	Saiam da frente, dinossauros! A vem Elvis! Cuidado, Tom & Jerry, vocs tm concorrncia! Quando comeamos?
Travor tambm se levantou.
	J tenho gente trabalhando nisso. Esto apenas esperando por uma ligao minha, para voarem para Memphis, a fim de se reunirem com vocs. Teremos de entrar em contato com os herdeiros, a fim de...
	Eu sei. J fiz isso antes. No h problema.  Lou olhou para Erin e, ento, para Travor.  Scios, hein? Por que no se limita a me fazer um emprstimo?
	Porque fiz minha lio de casa, Lou. Um bom vdeo pode custar de cinquenta mil a cem mil dlares, dependendo das locaes, equipamentos, elenco e tempo de filmagem.
Prefere um emprstimo a um scio rico?
Lou sentou-se no balco e voltou a olhar para Erin. Mais uma vez, Travor percebeu a comunicao muda das duas. Erin aproximou-se dele.
	O que Lou est querendo dizer  que, se fizer um emprstimo, poder montar em sua motocicleta e viajar como planejava. No ter mais problemas com a famlia Weller.
Travor passou a mo pelos cabelos.
	Vocs querem mesmo que eu monte em minha moto e suma daqui, no ?
	No  o que voc quer?  Erin inquiriu.
	No, no  o que eu quero. Quero fazer passeios de fim-de-semana, com a minha esposa e o meu filho.  Puxou-a para si.  Erin, eu descobri que estava fugindo. Pensei que todos riam de mim, na minha cidade, mas no era verdade. Eu te quero, Erin. Eu te amo. E quero fazer parte dessa sua vida maluca, nem que para isso eu tenha de vestir macaces de couro e cantar Hound Dog pelo resto da vida. Quer se casar comigo?
Erin afastou-se e fitou-o nos olhos.
	Ah, Travor, eu te amo...
Antes que pudesse terminar a frase, a porta da cozinha abriu-se com um estrondo.
	Eu j disse sim, mame. Vou ter um buddy seat, uma casinha na rvore, e todos os cachorros que quiser.
Lou juntou-se ao neto.
	E eu vou ter um scio silencioso.  Quando Erin e Travor a fitaram, ela explicou depressa:  Acho que ser melhor marido, pai e genro, se no usar um macaco de couro pelo resto da vida. Concorda?
Travor abraou Erin e sorriu.
	Plenamente!

CAPITULO XI

Erin estava no meio do quarto, girando em seu vestido de noiva cor de marfim. Era a segunda vez que o vestia.
	Apresse-se, Travor. Vamos nos atrasar.
	Eu nunca me atrasaria para o meu prprio casamento  ele respondeu, ajeitando a gravata.  Especialmente, meu segundo casamento.
Erin riu.
	As pessoas devem achar que somos loucos, para fazer duas cerimnias em dez dias.
	No tnhamos escolha. Um casamento para Lou e a turma de Memphis, outro para Nellie e a turma da corrente de preces. Imagine o que aconteceria se negssemos a uma das duas a alegria de planejar tudo isso!  Tomou-a nos braos.  Por que no ficamos aqui... e vamos direto para a lua-de-mel?
	No  m ideia  Erin respondeu, deliciando-se com o abrao.
	Vai ser difcil bater o casamento de Memphis. Lou se superou.
	Difcil vai ser bater a lua-de-mel em Nova Orleans. Voc, sim, se superou  Erin murmurou com m sorriso malicioso.	
	Verdade?  Travor beijou-a.  Para onde vai me levar, na prxima lua-de-mel?	
Haviam dividido tudo. Lou e Nellie haviam organizado as cerimnias. Erin e Travor haviam planejado uma lua-de-mel cada um.
	No posso dizer.  segredo  ela provocou.
	Nada de segredos. Foi o nosso voto em Memphis.
	Nada de segredos  Erin concordou.  Contarei para onde iremos, assim que nos casarmos no Texas... Se  que vamos chegar na igreja!
O telefone tocou.
Travor consultou o relgio.
	Nossa, estamos mesmo atrasados. Deve ser Nellie.
	Ou Max.
	Ou Lou. Deixe tocar.
Erin ajeitou-lhe a gravata e beijou-o.
	Espero que esta cerimnia seja to perfeita quanto a de Memphis. Kimbie Love cantou to bem. Foi uma boa ideia sugerir que ela usasse aquela voz sensual numa cano tradicional. Deu certo. Mas voc no ficou surpreso por Lou ter escolhido msicas to tradicionais, como I Love You Truly!
	Lou queria que tudo fosse bonito e perfeito para a sua nica filha.
	E foi, mas eu esperava algo como Hawaiian Weddng Song, cantada por um imitador de Elvis.
	Teria feito objees?
	Claro que no. No fosse por Elvis...  O telefone voltou a tocar.  Vamos embora  Erin falou e puxou-o para a porta, sem atender o telefone.
Travor segurou-lhe a mo e puxou-a na direo da pickup, mas Erin parou.
	Espere.  Olhou para a Harley Davidson e sorriu.  O que acha?
	E o seu penteado?
	Posso ajeit-lo na igreja. Vamos.
Correram para a motocicleta preta e vermelha. Travor tomou Erin nos braos e acomodou-a no buddy seat.
	Isto l loucura  murmurou.
	Tanto quanto os seus sapatos.
Travor riu e montou na moto, dando uma olhada nos sapatos que comprara em Nova Orleans, uma verso concreta de Blue Suede Shoes.
Era um dia quente e ensolarado. Quando chegaram  igreja, um grande nmero de carros encontrava-se estacionado do lado de fora.
	Parece que a cidade inteira compareceu  Erin comentou.
	Foram todos convidados. Desta vez, esperam ao.
Erin riu.
	Acho que foi por isso que voc fez questo que nos casssemos em Memphis, antes. Para ter certeza de que eu compareceria  segunda cerimnia.
Travor tomou-a nos braos e colocou-a no cho.
	Eu sempre soube que voc seria capaz de tudo. Agora, vamos correr. Quero chegar logo  parte da lua-de-mel.
Erin corou. A primeira lua-de-mel fora um longo fim de semana no hotelzinho do French Quarter, em Nova Orleans. Ela no poderia ter ficado mais feliz. Adorara a sensibilidade de Travor, bem como seu romantismo. Afinal, Nova Orleans tivera um significado especial para ambos. Haviam passado muitas horas na cama, contando exatamente o que haviam sentido em sua primeira visita  cidade, quando haviam passado a noite sozinhos, cada um em seu quarto. Agora, podiam rir do acontecido, mas prometeram nunca mais esconder os sentimentos um do outro.
Erin estava ansiosa para surpreender Travor com a segunda lua-de-mel: mais uma vez, no hotel do French Quarter, em Nova Orleans.
Virando-se para a igreja, ouviu a msica e viu Max abrir as portas.
	Mame! Travor! Esto atrasados! Tia Nellie est a ponto de ter um ataque!
	Tia Nellie?  Travor repetiu, erguendo uma sobrancelha.
Erin sorriu.
	Ela pediu que ele a chamasse de tia. Disse que ele vai se dar muito bem por aqui.
	O que isso quer dizer?  Travor inquiriu confuso.
	No quero nem pensar.
Dentro da igreja, todos os bancos estavam ocupados. Os convidados aguardavam. O perfume de flores, velas e colnias tomava conta do lugar. O piano e o rgo harmonizavam-se com perfeio, tocando algo que Erin no reconheceu.
Conforme o planejado, Erin e Travor entraram de braos dados. De repente, a msica mudou para algo que Erin conhecia: Hawaiian Wedding Song. Era olhou para Travor, que sorriu com ar maroto.
	Voc sabia  ela o acusou.
	Fui consultado sobre alguns detalhes.
	Agora compreendo porque insistiu em comprar os sapatos. Devo ficar preocupada?
	S se comear, a implicar com os plos no meu peito.
Segundos depois, estavam diante do reverendo Perkins, repetindo os votos. Ento, Erin surpreendeu-se quando o pastor pediu a Max que se juntasse ao casal. Max deixou seu lugar ao lado de Lou, com um largo sorriso.
	Max Weller,  um homem de sorte por pertencer a uma famlia to cheia de amor. Imagino que tenha algo a dizer.
Max retirou uma folha de papel do bolso do smoking, limpou a garganta e olhou para Travor com ar solene.
	Sempre tive a melhor famlia do mundo: minha me e minha av. Nunca pensei que pudesse ser melhor. Ento, voc apareceu, Travor. E foi demais. Voc me fez sentir falta de um pai.  Deu um passo na direo de Travor. Mas, agora, tenho um.
Erin observou Travor passar o brao em torno de Max e pux-lo para perto. Lgrimas rolaram por suas faces.
Ento, a msica comeou e MaeBelle Shirley aproximou-se da pianista. Ela cantou Love Me Tender, com lgrimas nos olhos. Erin refletiu que a cano nunca lhe parecera to linda. Segurou a mo de Travor, que apertou a sua. Os dois sorriram e olharam para Max, em tempo de v-lo erguer um polegar para Lou e piscar para Nellie. Nellie sorriu e piscou para a sra. Lucas, que piscou para MaeBelle, que piscou para o reverendo Perkins, que piscou para...
Erin ergueu os olhos para Travor com ar desconfiado.
Ele deu de ombros.
 Isso  que  amar voc, baby  explicou, na melhor voz de Elvis.

FIM
